agosto 21, 2017


Quando se contabilizam os dias retira-se de algum lado o espírito que os envolve. Os dias são vasos sagrados onde se plantam sementes extraordinárias, palavras incompletas ou rajadas de vento. Mas ao se entregar aos dias, a esses vasos uterinos, os números e as fórmulas de catalogar, perdem-se definitivamente as passionatas relíquias que vivem e exaltam a cor e o sabor de que são formados os nós dos amores. E se os números insistem, os vasos secam por dentro, tornam-se quebradiços por fora e cada dia desfaz-se em medidas de tempo que apenas servem os infra-humanos, especialmente os que nunca se imaginaram. Quando o dia faz por existir, quando as horas e os minutos se transformam em verbo, acariciar não é o primeiro de nenhuma lista. É certamente momento de o declamar.

agosto 20, 2017

Na dúvida, certeza absoluta


Na dúvida, certeza absoluta. Porque a luz assim o determina, porque a cidade funciona e a energia é o sangue que perpetua e se consome sem apetite. Atiro-me de qualquer centésimo andar de algum centésimo edifício, a questão é mera retórica ou algum divertimento encadeado pelos faróis de mil automóveis enquanto outros mil esperam a sua vez. A espera existe como palco e a pressa como guião. E cada argumento possui-se a si mesmo, numa latitude impossível onde a manhã se retarda todas as noites. As luzes de qualquer centésima cidade ou milésima rua são a raiz, o caule e a folha. O fruto é a vampiresca necessidade de absorver energia como se fosse guloseima. E a flor, a janela do milionésimo edifício onde se olha, vê e decide o salto.

agosto 19, 2017

O sol será azul se eu quiser.


Ínfimo, eu me confesso perigoso, legado de algum trono que desconheço ou apenas motivo de geração incipiente, onde a hierarquia não passa de um favor ou no limite, uma ordem. A ganância da vontade, esse liquido pecado nulo do qual se constroem as lendas ou os semi-deuses, não passa de teimosia temporária, ou aparência excêntrica onde o olhar pára e se diverte. A lei nunca foi una, apenas o papel confirma, mas mil mentes e mais mil e outras mil, compreendem cada instante de maneira alheia, como se a vida fosse propriedade da alma e a alma existisse como decreto orgânico onde a vírgula e o parágrafo fossem fios de vento que não se agarram nem repetem. Dúvidas são as respostas dos alados quando nos sobrevoam, inchados da sua proeza e inertes no seu propósito. E nós, de olhar no céu, ou em céus diferentes, buscamos o que não se encontra. Prendemos o nosso pulso ao portão enferrujado e ali ficamos em pausa por muito que gritemos luta. Aplaudimos a maré apenas por ser maré. E choramos as lágrimas que guardamos em garrafas para os momentos de choro. Ínfimo, eu me confesso supremo, apenas por me lembrar destas mínimas incertezas arrumadas a um canto.

agosto 17, 2017

Todos os tiros revelarão carícias


Todo o armistício traça-te caminhos na pele onde os meus dedos viajam sem permissão. A trégua ou o beligerante cessar fogo, encontram veredas e caminhos desconhecidos ao longo de muros cobertos de pinturas, os esconderijos que o rio conhece e não esconde, o quarto sem paredes e«nem lençóis onde lutamos o nosso amor como se paixão fosse um carregador repleto de projecteis, mais uma na câmara, para nos atingirmos simultaneamente em todas as partes do corpo onde a ferida seja prazer. Conheço lugares onde o amor conhece minutos que não sabia existir. E nesses lugares, cada disparo molda uma ressurreição que o corpo compreende.

novembro 23, 2016

Creio serem horas


Ao deambular pelos confins e outros lugares um pouco mais perto, descobri a essência, uma claridade ténue varrida por uma brisa gelada, um palco, um altar e uma cadeira, de acordo com as necessidades ou os temores que se guardem no bolso. As águas parecem pairar enquanto uma ave sem nome faz de barco ou de naufrago. O relógio ganhou tédio na medida exacta dos ponteiros que faltam. E a carícia regressou por momentos, ou instantes, só ela sabe. No terceiro andar, a noite espera. E esperará sempre, pelo menos enquanto os passos subirem os degraus alcatifados da íngreme persistência.

outubro 07, 2015

No limiar da floresta não há luzes


Caminho ladeado por azuis e cinzentos, muros e distâncias largas onde se escoam visões e se prendem dúvidas e hesitações. Neste fosso, as ilusões têm a forma de peixes como se os vermelhos e os lodosos fossem irmãos unidos de uma gestação enganosa ou, apenas, porque a natureza decidiu mostrar que a vontade não tem lugar neste remoinho de geometrias sem graduação humana. Eis a atracção pelo vazio, esse bocado de mundo árido que a sede não verga nem polui. E nessa cave imunda, luminosa em dias de marcados pela hora de acordar, os vasos dão guarida a planos de vida sem pressa de chegar a velho. Talvez por isso, o vento é a forma perfeita de entender o lugar exacto das coisas.

setembro 22, 2015

Prolongando a travessia da ponte


Eu não quero que seja fácil. Não quero o sorriso sem o desejo. Não quero o sim sem as dúvidas, o caminho sem os enganos. Não quero saber sem procurar, o sabor sem a antecipação, preciso de cada véu sem forçar os minutos de cada suspiro.