janeiro 17, 2005

Com o corpo

Olhar devagar, subtraindo as escolhas, perseverando a vontade onde o desejo não tem lugar. O desejo que de humano não é bem-vindo. Aqui quer-se o ser animal. O magnetismo. Olhar devagar, sequioso, adivinhando as proibições num esgar sem face. Devagar, passar o polegar no indicador, sentindo a textura, a pele que se quer fragmentada. Devagar, muito devagar, suster o sorriso, deixar cair o não e as virtudes, possuir naquele segundo, naquele minuto, a alma e o corpo. E tirando o sentido ao tempo, mergulhar na carne o olhar, o sabor, o paladar da saliva. Humedecer o lábio, o de cima, inclinar a cabeça ao ritmo da curva da perna, pedir mais e mais, revirar os olhos na pausa e exigir movimento. Olhar devagar os trapos pretos, a pele branca, fazer poesia no encontro dos dois... e depois, querer as cores separadas. Recusar o habitual num rito de elixires guardados. E o fumo, sempre exacto, mais que mordaz. O fumo envolvendo a cenografia que o olhar pretende vagarosa. Bonita. Sumarenta. Sem palavras, sem ordens ou pedidos, o olhar quer desnudar, violar a intimidade que já não é. Sedas, grita-se por sedas. Gritos guturais, bafientos, que se perdem nos minutos que separam da hora. Atrasam-se os ponteiros, os cronómetros, altera-se o ritmo do coração, diminuem-se as pulsações, vitimiza-se o silencio. Só o fumo, o olhar, a pele branca, os acordes de uma musica repetitiva. À luz de uma vela cor de vela, sustenho. Hesito explicar palavras e pontos finais. Decido. E fico-me ali, deitado sobre uma almofada que não é minha, minado por uma pele que não é minha, transpirado, movido por um olhar. O que me pertence.

ao som de Les Jumeaux "Feathercut"

1 comentário:

Anónimo disse...

Fiquei sem palavras, com este post. Ando a fazer zapping no teu blog já faz algum tempo, sou marrona e quando gosto não sei parar. Sabes aquela mania de que o que nos pertence é o fica retido na memória, e para isso é preciso ler e fazer copy past para depois reler até decorar.
Hoje já me pertence “como se a hora fosse feita de fitas enroladas e missangas de cor”, "Quando se adia o mergulho e se espera a onda perfeita","Batia o pé com a canção que lhe lembrava antiguidades. Encaixava cada corpo na fantasia que melhor se adaptava".
Vou continuar a procura de mais tesouros.
Obrigada :-)
maria joão