janeiro 17, 2005

O quarteirão

Os dias, quando passam por nós, ganham as cores que nunca julgamos adivinhar. E depois... Depois, somos atingidos pelo brilho de um anil que não é o nosso. Por muito tempo, pressenti ter o dom da ubiquidade. Vaguear por dimensões que não estavam ali. E assim, percorri guerrilhas, sonorizei estados de alma e deixei-me ficar numa rua cheia de gente, sentado no chão, encostado a uma montra, a rir. Chamam-lhe avenida, mas eu não acredito. Não acreditava. Vagueava pelo sentido de um estado químico, que me arrastava para a completa distorção dos ângulos rectos. E cada vez que ria, era da cor quase exacta. Não sabia que existia o tempo. Nem sequer as horas ou os minutos. Estava ali, cúmplice dos meus cúmplices, vestido de uma forma qualquer, sem ponto cardeal, sem doutrina, sem querer. E ficaria ali toda uma vida, se não me tivesse levantado e caído outra vez. Hoje, tenho pena. Como a teria se fosse ontem. Houve um dia que quis entrar num igreja escolhida a dedo. Fui barrado à entrada. Não possuía a senha. Virei costas aos sinos e aos infiéis e quis-me bastardo. Não voltei. Achei que não valia a pena. Às vezes, ainda circundo as ruas que a limitam, mas já nem olho para ela. Nem ela para mim. Prefiro os becos e as ruas estreitas. Onde as igrejas não sabem os segredos. Ofereço-os, nos restaurantes decrépitos e cheios de mesas vazias. A verdade, só a confesso aos comboios. Aqueles que partem das salas estofadas de rasgões e tectos demasiado altos. Os que levam sempre um bocadinho de mim. E por isso, nunca os vejo partir...

ao som de In The Nursery "Days of Freedom"

Sem comentários: