janeiro 14, 2005

Teatro da Salvação

Como numa ópera, subjugo-me aos coros e sinto-me explodir. Adianto as guitarras e os martelos pneumáticos, peço as pausas que me são devidas e parto para o fundo do palco. Volto-me e olho a plateia imóvel. Levanto o olhar para as frisas e os camarotes, para os tectos barrocos pintados de dourado, embacio-me com os veludos escarlates, ofusco-me nas jóias e pérolas das damas biscainhas e invejo-lhes os decotes. Ante as calvas sorumbáticas e disformes dos banqueiros e ministros, oferto os meus esgares de nojo. A um gesto meu, a orquestra irrompe e o coro grita e gesticula odes infernais. Quero o caos, a virtude e um raio fulminante em direcção a Marte. O céu pode esperar. Para sempre. Com os olhos fixos na fila de violinos, abro os braços em desafio e rejo a orquestra entre trovões e pânicos. Alagado em suor, incito os actores ao assassinato, exijo aleluias frenéticos, sinto as articulações ceder e as artérias a rebentar, prevejo cataclismos e os apocalipses que julguei inventar. Estou lívido, fulcral, pertenço a uma ordem que já não existe, sou templário do adeus e da revolta, precipito perdões e carícias, desperto amores vadios e beijos brutais. Sou divino. E imundo. Ordeno as forças do mal e da verticalidade que me cubram de riquezas e ilusões. Torno-me em trono e ocupo o palco com a autoridade dos antigos reis da lenda. Clamo por dragões e virgens, por santos e violadores, por mendigos e generais. Queimo todos os libretos, editando por decreto a minha baba. E luto, luto incessantemente pelo vazio e o nada, por luas intermitentes em volta do meu cerebro. Tatuo o perfil dos meus fémures no meu tórax ferido. Pretendo observar longamente o meu próprio crânio. E num volte face bestial, renego-me num perfeito reajuste, blasfemo as minhas entranhas e num suspiro final, confesso todas as mortes de que fui carrasco. Ao acorde da derradeira linha da pauta, sorrio, mastigo os dentes que me restam e com o sopro de vida que me mantém, a plenos pulmões exclamo: "A vós, a ignomínia... A todos, a ressurreição... A ti, rosas e ornamentos... E a mim, o descanso que me mitigue a fadiga".

ao som de Dargaard "Underworld Domain"

1 comentário:

Não me esqueças.... disse...

Com curiosidade de ler o primeiro texto deste idílico espaço.

maravilhosamente surpreendente, cada texto tem uma nova face a cada leitura.

Quem assim escreve, é deveras um escritor com alma de poeta (ou um poeta que bem escreve:-) mas de quem espero livros editados.