fevereiro 16, 2005

Divino

Por capricho, ou imprudência, tornei-me num deus para questionar a Natureza. Varri todos os papéis que inundavam a mesa do meu trabalho e com um gesto seco, desfiz-me de todos os traços humanos. Depois, inventei uma taça cor de âmbar, que enchi com água. Coloquei-a num dos cantos da mesa. Recolhi as pétalas de quatro rosas e com elas cobri a água.
Estranhei por alguns momentos, mas descobri-me desprovido de todos os sentidos mortais. Descobri outros. Notei que as diferenças entre os homens, são afinal preconceito. A Natureza, a de verdade, a que regulamenta a vida, não perde tempo em criar barreiras entre machos e fêmeas. Isso é tarefa da outra natureza, a que se escreve com letra minúscula. A que serve os desígnios das doutrinas e da retórica. A que se vende em nome de ideais e religiões. A que se limita a ser pântano. Preocupava-me a noção de pureza. A pretensão de regras impostas, o querer de alguns sobre todos os outros, os limites do animalismo e da sua carga magnética. Enfim, as horas, os costumes, as passadas definidas, os capítulos e os tratados. Preocupava-me toda a certeza. O absolutismo de uma certeza que se vende todos os dias. Tornei-me num deus e descobri a Natureza. E verifiquei que a outra, nem sequer existe.
Ser, como viver, tem as regras inerentes ao vazio, ao vento e ao apetite. Nada mais. O homem, como a mulher, decide a sua direcção. E dela, não fará definição nem dever. O homem, como a mulher, desvenda o seu desejo. E dele, não tornará rumo ou objectivo. A sensação deverá tornar-se emoção e esta, plenitude. O sim de um, não será o sim de outro. O sol, a chuva, o vento e o ocaso, serão as únicas forças a admirar. Os deuses, não serão mais que mensageiros. O homem e a mulher só se completam quando tal for a razão. A mulher e outra mulher, tal como o homem e outro homem, serão as partes inteiras se assim a Natureza o indicar. A Natureza de cada homem e de cada mulher. O vocábulo amor não existirá, porque não será necessário escrever ou dizê-lo. Estará presente. O amor terá forma de homem ou mulher. O amor, será homem ou mulher. E como a eternidade, carece de regras ou proibições.
Sentado, com a taça de pétalas no meu horizonte, fechei os olhos por momentos. Na minha Natureza antevi os risos, o prazer, o restolhar de crianças, as palavras dos sábios, os sons, as fases da lua, as cores e os sabores. Na minha Natureza antevi o brilho de uma mulher, o seu sabor e os seus lábios. Na minha Natureza senti-me ofegante, atento, sequioso. Quando abri os olhos, reconheci nas paredes a partilha e a simbologia divina. E por ser um deus, abri as mãos.

ao som de F.G.T.H. "Welcome to the Pleasure Dome (Fruitness Mix)"

1 comentário:

Von disse...

O narcisismo de me comentar a mim próprio, só é comparável à condição de me sentir um deus. E talvez, apenas talvez, se cada um de vós se sentisse deus, o suspiro e a paixão seriam as respostas para todos os enigmas.