fevereiro 15, 2005

Encontramo-nos no Graal

Tremo só de pensar no momento seguinte. Aceito o cigarro que há anos não experimentava, acendo-o com sofreguidão e sem me saber a nada, viro as costas à capela, aos convidados, ao mestre de cerimónias e a todas as flores que cobrem o chão. Tiro do bolso a chave do carro e antes de arrancar, olho a cruz iluminada. Nada mais resta para me demorar ali. Faço a manobra e acelero com a fúria de alguém que foi ludibriado. Fraude e dinheiro fácil... fraude e dinheiro ágil. E tudo isto, todas as provações, todos os cuidados e lamúrias, as tardes lentas, as beatas dos charutos engelhadas, as cinco horas todos os dias, e a seguir, e amanhã e sem nunca querer dizer adeus. Tudo isto, para nada. Para me sentir vítima e carrasco da sofreguidão. Para me acabrunhar de vez, coberto de milhões, enregelado por dividendos e lucros diários. Fui bem enganado.
Acordei na madrugada da realidade guiando um descapotável. Chovia uma morrinha fértil. A chuva dos silenciosos. Percorria a estrada de asfalto claro que cheguei a duvidar. Com o cinto de segurança a travar-me os impulsos, as bombas de gasolina entre as fábricas compridas e os respectivos edifícios de escritórios, o trânsito de ocasião, habitual, julgava-me invencível. Tinha aprendido a invejar as minhas intuições, sabia-me mordaz e cínico, quase como uma menina de laçarotes cor de rosa que exige bolinhos de cereja para o lanche. Conhecia-me. Há uns anos. Com as duas mãos no volante, actor vestido de almirante ou de fugitivo, desenhava as curvas com aplicação, retomando a cada pedaço de recta, o fatalismo dos mandarins que sofrem de gota. Na mala do carro, um monte de papéis em desordem confirmavam o meu estatuto de rico. Aliás, nem seriam necessários. Tinha saído a minha fotografia em quase todos os jornais. Primeira página. Ou última, conforme os casos. Estava lá tudo: A surpresa mal disfarçada, o ameaço de desmaio, as lágrimas inconformadas, os olhos fechados, os óculos escuros, o copo de água e a fuga repentina. Que me importa, era tudo verdade. Por uma vez, os jornais prescindiam do meu reparo. Que se danem.
Eram seis da tarde, quando decidi parar. Era um restaurante conhecido. Meu conhecido. O parque de estacionamento vazio, suspirou-me o desejo de estar sózinho. Fechei o carro e entrei. Comecei pelo fim: No bar, pedi a garrafa de rótulo negro e sentei-me perto da janela. Não me reconheceram. Depois do segundo copo, pedi uma mesa para jantar. Na segunda sala. A que me conhecia. Sentei-me, pedi logo o vinho habitual e recusei a ementa. O costume chegava. Não mudei os hábitos. Se calhar...
Comi pouco, mas bebi toda a garrafa de vinho. Quis sobremesa, mas não consegui engolir. Bebi dois cafés. Seguidos. Sôfregos, na esperança de me fazerem bem. Na casa de banho lavei a cara e olhei-me ao espelho. Estava velho. Pedi a conta e de pé, acendi um cigarro. Paguei com uma nota alta e voltei a fugir. Nada seria como dantes. Nem os silêncios, nem os sabores, nem a ordem natural das coisas. Aspirei o ar fresco da noite, pensei em segundos toda a história do jornal e evitei sorrir.
Sózinho, com o meu dinheiro, voltei à estrada, rumo a uma encruzilhada. Sabia exactamente onde encontrá-la.

ao som de The Stone Roses "I Wanna Be Adored"

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