fevereiro 22, 2005

Epitáfio

Na certeza de um tempo ausente, na carícia de uma voz de mulher, no pedido e na ária que ficou atrás das cortinas, no dourado e no azar, na intuição feminina de um olhar hesitante. Na tortura. No poço. Nas almas.

Enternecido pela volúpia, deitado sobre almofadas de fios desbotados, procuro o momento da metamorfose. Espreito o casulo e a roda dentada, encho os copos dos violadores e num assomo de inteligência, brado aos céus que me enterrem num sítio ermo e gélido, onde os vermes não existam e as carpideiras não me encontrem. Morro como poeta. Delego o meu legado aos perdidos, aos fracos e aos eremitas. Que as minhas palavras sejam comidas pelo vento. Que do meu rosto não se lembre ninguém. Que da minha carne, se sacie a fome. E morto, fétido em farrapos de conde, eu seja entregue a alguma amante, para que me trespasse a mortalha. Não quero nojo nem vivalma. Não pressinto feridas imensas. Pretendo apenas o enterro que encontrei numa obra-prima.

Estou à beira do precipício. Vejo as ondas a meus pés e as flechas nos meus braços. Fui coroado rei. Vilmente. Os prados estão cobertos de vassalos que ajoelham a minha soberba. Os cleros e as nobrezas agitam lenços vermelhos. A corte traja de negro. Eu, senhor da terra e do céu, obtenho a promessa dos outros deuses. Serei um. O único. Por dentro sinto a ruindade a trincar-me. Tusso sangue e ouro. Sou filho de Maquiavel. Quero carnes, vinhos quentes, mulheres e homens nus em grupos de oitocentos. Chamo videntes e assassinos, clamo por alguns amigos. Ordeno que me tragam cegos, todos os estropiados do reino, padres de bornal bem cheio e virgens mudas de medo. Se vou morrer, que morra de apoplexia. De fartos concílios e deboche, de orgias descomunais. E que mil olhos me observem toda a noite. Todas as noites daqui até ao apocalipse. E então, entre almas miseráveis e adúlteros manietados, que me seja entregue a coroa da desgraça. Desnudado, com um punhal na mão, que me cubram de mentiras. Ergam a torre mais alta e empurrem-me no abismo.

Rezem-se todas as missas. Celebrem-se três velórios. O rei está morto. Enterrado. Que não descanse em paz.

Sem comentários: