fevereiro 18, 2005

Falsos profetas

Subjugado por dúvidas de Flandres,
perdido numa ventania oca,
sem pouso, sem catre,
movido por imagens vãs;
vergo-me à direcção da forca.

A caminho,
a caminho meus irmãos,
vede a luz, trémula,
são quebrantos,
violáceos,
perigos de barbárie terrena,
estupros celestiais
vírgulas extremas.

De noite,
sob as sombras das árvores,
os atalhos são vias sacras.
Pedintes
e vagabundos,
sob as marés
entre velas desfraldadas a jusante,
perseguidos pela fé,
esquecidos pela fortuna,
espezinhados em bolor
fervidos em água tépida.

São os gatunos,
bestas infiéis,
em número redondo de quinze,
sujeitos a mil escrútinios
de idade muito avançada.
São mostrengos,
e devoram luares.
Mostram-se alvos à turba,
permitindo a vergonha
enquanto matam a sede
com lodo de santas fontes.

Tremendo terrores de lenda,
de olhos esbugalhados,
pé ante pé
em pavor,
sumidos de algum alento;
os crentes, as prostitutas,
os antigos
e os batoteiros,
toda a fauna que a memória
insiste em mastigar.

Com as muralhas à vista,
vendo os archotes brilhar,
sente-se um querer maligno,
um cálice de velha cicuta.
De chagas abertas ao frio,
de ventre inchado
de míngua,
o choro babado em ribeiro,
a esperança
é cativeiro.

Só,
longe dos meus irmãos,
errando nas curvas da aurora,
ergo o punho para o céu,
e recito a heresia.

Pobre,
doente,
estafado,
protegido por nenhures,
embalsamado em vida
por feridas descomunais,
a voz transtornada em dor,
a vontade em farrapos,
suja de nada mais.

-Eis-me.
Já não sou meu.
Dou-me de pasto aos malditos.
Fustigo-me em vossas preces.
Comungo do vosso nojo.

Possesso,
encandescente,
num derradeiro arremedo,
babado de tons de ira,
desvendo por fim
o segredo:

- Dos céus,
a ignorância,
dos infernos,
compreensão.
De norte, de sul,
a vida.
Do meu próximo,
podridão.

ao som de Orphaned Land "El Norra Alila"

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