fevereiro 21, 2005

Orly, manhã cedo

Jurar
Potenciar escárnios e bem dizeres
Minguar

Na solidão,
perdido na vista de um par de cuecas,
nas calças de vinco imperfeito,
na luz fosca
dos segredos no fundo do copo.

À cor da selva que não se molha,
no aeroporto
de madrugada
a claridade que se mantém muda;
o café
a quente,
samaritano,
perdido nas bagagens dos outros,
no autocarro
ao lado da chuva
com o saco sujo entre as pernas,
as mãos nos bolsos,
húmidos,
lentos...
divorciados.

Com a cidade
ao fundo
gemendo,
antecipando vinganças,
a rua de sempre longe
amnésica
no zumbido do motor,
chocalhando o cansaço
de gente
anónima.

E na boca,
o sorriso tímido
de quem alcança.
No verso,
na fagulha,
reentrar na vida
mordiscando um pedaço de céu.

ao som de Talking Heads "Heaven"

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