fevereiro 02, 2005

Quando os olhos dos gatos brilham

Ela fechou a carteira e recostou-se, gozando o prazer de parecer o que não era. Com um gesto feminino, compôs a meia e seguiu a perna até ao sapato preto que lhe agradava a silhueta. Já tinha bebido o suficiente. Qual suficiente? O de alguém ausente? A medida certa de parar o destino e a compostura? Pelo menos era o que lhe tinham impingido no colégio e na herança. Mas como o testamento já estava rasgado em quatro partes, como a fila certa do cemitério já não tinha nome, para quê esperar o dia seguinte. Porque não viver todos os dias que ainda faltam, no que ainda falta da noite? Fez um gesto discreto ao empregado e esperou o copo cheio. Com a cabeça um pouco pesada, embalou-se numa calma própria de tormenta. E sentiu-se mais feliz que nunca.

ao som de Jim Brickman "Harlem Nocturne"

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