fevereiro 10, 2005

Sono escreve-se com oito letras

Preparou o alarme do relógio para as 11 da noite. Abriu a gaveta e tirou as chaves de casa. As do carro, esqueceu-se delas. Fechou a porta com três voltas, aspirou o fresco do fim de tarde e sentiu-se vivo. Já no passeio, tirou um cigarro e acendeu-o com o prazer das noites compridas. Sentindo o frio, pôs as mãos nos bolsos do sobretudo de sempre e com os olhos semicerrados ao sol de poente, procurou um táxi.
Recostou-se no banco de trás e deixou-se ir. No rádio, canções populares que normalmente lhe aguçava o ódio. Agora, apenas sorrisos. No longo percurso, sempre junto ao rio, seduziu-se pelas filas de contentores e cargueiros ferrugentos, inspiração para as poesias que outros musicavam. Outros ainda as cantavam. Um trabalho hipócrita de equipa. Pediu ao "chauffer" se podia fumar. O outro, num resmungo, foi simpático. Acendeu outro cigarro e reparou que lhe restavam dois. Ainda havia tempo.
Pagou e recusou o troco. Ignorou os salamaleques e fechou a porta do táxi. Nem o viu arrancar. Olhou em volta. A praça estava na mesma. Como aquele fim de tarde há que tempos. O frio era diferente. Mais ácido. A luz, mais cinzenta. A memória, porque os anos passaram por aqui e não quiseram parar. Viu a porta do café de antigamente e entrou, um pouco solene. Afinal, já lá iam mais de trinta anos. O balcão de mármore era de inox. As prateleiras de madeira e vidro, alumínio e acrílico. O cheiro, uma miragem. Pediu um café, à procura de outro sabor. Já lá não estava. Riu quase alto. O empregado olhou-o com surpresa. Depois, com desagrado. Encolheu os ombros, deixou uma nota em cima do balcão e saíu. Eram 7 e meia. Chamou outro táxi e não se despediu da praça.
- Para a Alta, por favor. - Não perguntou se podia acender o cigarro e com olhos no vidro, embrenhou-se no começo da noite. Desde pequeno, brilhavam-lhe as idéias aqueles reclames luminosos. Mas nada como os néons do seu tempo. Para seu gosto, os actuais ou eram poucos, ou tinham um brilho baço. Falta de ambição. Ou de querer. As montras das lojas fechadas, impassíveis e superiores, acesas para a sua própria soberba, marcavam-lhe o cérebro disponível. Eram como um fetiche. Sempre que chegava a uma nova cidade, sempre ao anoitecer, jantava e rondava essas montras convencidas, até o cansaço e o sono o chamassem. Um prazer carnal, sem o odor a sexo. O táxi ultrapassava-as com rapidez, como se o desprezo fosse um salvo conduto para os semáforos. Riu quase alto e viu os olhos do "chauffer" no espelho. Estavam parados, com o sobrolho franzido. Não ligou.
Pagou e recolheu o troco. Mal saíu, sentiu o táxi arrancar num impulso. Olhou as moedas e deixou-as escorregar para o chão. O restaurante estava aberto. Entrou com o pé esquerdo à frente e escolheu a mesa de então. Pelos velhos tempos, começou com uma imperial. Leu a ementa com vagar. Nome por nome, prato por prato. 8 e 20, tinha tempo. Decidiu-se pelo arroz de pato no forno e uma meia garrafa de um tinto que tinha esquecido o nome. Ainda esperou pela tentação do pãozinho com manteiga, mas achou que era desnecessário. Os empregados eram todos novos. Que seria feito dos outros? O careca de camisa de manga curta. O magro, baixinho, de borbulhas no queixo. Lembrava-se da voz de ambos. Bebeu um gole de vinho à saúde deles. Boa ou fatal. Comeu sem olhar as horas. Mastigou como há muito não se lembrava. À sobremesa, não recusou o toucinho do céu. O sabor era o mesmo. Estranho. Não bebeu café e deixou uma gorjeta pelo doce. Antes de sair, acendeu um cigarro. Só ficava com um. Ao canto, junto da porta, uma máquina automática de venda de tabaco, mostrou-se. Não tnha moedas e não lhe apeteceu trocar dinheiro. Saíu.
Pensou que seria um boa idéia, caminhar até ao fim da rua. Ainda era longe. Tinha tempo. Passou à porta dos hóteis modernos e abrandou à vista de um dos antigos. Sorriu. Já lá tinha estado. Só durante a tarde. Tardes. Lentas de assumir e rápidas de esquecer. Exactamente ao contrário dos pedaços de chocolate que gostava de chupar. Ao longe, viu uma pastelaria e cedeu à gulodice. Comprou a marca que preferia e esperou o cigarro fugir. Imaginou-se numa cidade estrangeira e entregou com minúcia, os olhos à montras. Começou a pensar num idioma à sorte. Insistia nas palavras que já esquecera e criou diálogos inverosímeis, com empregados de lojas imaginários e alguns encontros casuais. Esqueceu o tempo por alguns minutos. Mais do que se imaginaria. Eram 5 para as 10. Sentiu falta de um álcool.
O táxi parou junto à porta iluminada. Pagou e esqueceu o troco e a boa noite. Entrou, baixou a cabeça ao porteiro da noite e chamou o elevador. O bar era no terceiro andar. Sentou-se numa mesa qualquer e satisfeito com a lisura do empregado, pediu conhaque. Olhou o barman, seguiu-lhe o movimento para a garrafa e descansou. Agarrou o copo em forma de balão com as duas mãos, como se fosse despedir-se de um moribundo. Por um acaso único, ouviu a canção que precisava de ouvir. Sorriu com embaraço e ofereceu a si próprio, a delícia de uma paz sem preço. Eram 10 e 35. Bebeu com pequenos goles, agarrou o sobretudo e desejou as boas noites. Deixou o suficiente para a bebida e muito mais pela canção. Já na rua, com as mãos nos bolsos e o vento nos cabelos, subiu a rua íngreme.
Quando chegou junto do muro, acendeu o cigarro, o último, inspirando muito devagar o primeiro fumo. Passou as duas mãos peos cabelos e olhou a cidade em baixo. A velha cidade suja e andrajosa que aprendeu a desejar. Foi a amante que mais lhe deu prazer. Trauteou a canção que lhe devia. Olhou o relógio e estremeceu por um segundo. Faltavam 4 para as 11. Levantou a cabeça, procurou o horizonte e com a mão por cima do bolso direito do sobretudo, sentiu o revólver. Porque gostava de finais felizes.

ao som de Balanescu Quartet "NoTime Before Time"

1 comentário:

chevry disse...

Aprendi a sentir-te. Ou a conhecer-te, não sei. A tensão que me provocas e que eu sei que se diluirá abruptamente algures, quase sempre de uma forma imprevisível. É como ter pressa e no entanto fazer tudo lentamente. Uma pressa que queremos adiar, prolongar, degustar, saborear.
Tenho saudades tuas. É possível?