fevereiro 25, 2005

Tudo

O amor é um cesto de maçãs. Carnudas, de apetites preferidos, de mel e flores colhidas pela manhã.
O amor só faz sentido a todas as horas. As primeiras, frias, aconchegantes, as de oriente, quando sol agarra as veias e brinca com elas. As suadas, corridas, sedentas de atenções e as de fome a dois, sorvidas com vagar ou à pressa, porque o amor as apressa. As soalheiras, lentas, salpicadas de pequenos tudos, solenes e lânguidas como um leito ameno. As seguintes, despertas, onde a luz se mistura com a vida, onde o fim não está à vista. As de poente, mornas, únicas, subjugando torreões e lendas. As de crepusculo, trémulas, escorregadias, onde a calçada permite o beijo. As que a noite empresta no seu reinado, principescas, naturais, começo de qualquer miragem. As ocultas, de memória, de badaladas aldeãs, de todos os juramentos, as que se dizem amanhã. E depois, todas as outras. As que faltam e se querem. E de terminar, se negam.
As maçãs, arrumadas no cesto, deixam-se quietas e mudas. Por amor.

ao som de Chet Baker "My Funny Valentine"

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