março 21, 2005

Cirurgias

Primeiro, ao longe, entre as folhas que teimam em cair, ouve o sussurro da estrada molhada, na expectativa do momento seguinte. Depois, no inicio, na justificação de um cheiro, no sabor e na retina, encontra as pistas que ordenou na parede. O branco das paredes, enjoa-lhe a mudança e a arrumação. E na dúvida, sente-lhe a frescura e o espaço. Nas milhares de capas dos discos que lhe compõem as paredes, descobre definições e palavras certeiras, como os tiros que gosta de exibir. Como empenhou o relógio, por ter a correia solta, esquece as horas com avidez. Amontoa os livros de linguagens de programação, num labirinto que só ele sabe desvendar. Fuma. Perfuma-se do cheiro de tabaco, num glamour que só ele conhece. Numa pausa estudada, lê as linhas que a vergonha não sabe omitir. Oferece-lhes um olhar brilhante.
Num segundo, deixa de ouvir o mundo fora da sua janela e estende a sua vida. A que lhe resta. Pega num bisturi e pressiona a incisão. Sabe de cor o nome dos orgãos e o seu lugar de origem. Mas quer mais. Limpa o sangue que se entorna de dentro, pega numa pinça e começa a mudar os orgãos de lugar. Decide-se e deita dois deles no caixote do lixo. Olha-os uma última vez e não lhes sente a falta. Volta a encarar a tarefa, volta a limpar mais sangue e recomeça. A primeira troca não o satisfaz. Retira o orgão mais problemático e coloca-o no cinzeiro, entre as cinzas. Com uma nova pinça, arquitecta os orgãos que mantém dentro. Ao fim de alguns minutos, levanta a cabeça e observa. Está quase perfeito. Olha o cinzeiro e enfrenta a transfusão. Limpa o sangue e à falta de linha e agulha, fecha a abertura com agrafes. Limpa as mãos, passa uma toalha pela testa e fecha o computador.
Escolhe um disco, sem acasos, guarda o isqueiro no bolso e com a chave do carro na mão, fecha a porta de casa com estrondo. Precisa de uma bebida.

ao som de Bolshoi "Crack in Smile"

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