março 03, 2005

Do principio

Seguramente a pedra será sempre pedra.
Deitada nos caminhos
nos carreiros,
sentada à janela dos moínhos,
escutando os afazeres das gentes,
das aldeias,
perigando as fúrias
das meninas,
nos ausentes.
Seguramente a pedra será sempre muda.
Agachada de fronte para as vielas,
é testemunha cega dos artistas,
no seio pacato dos autistas.
Sorvendo as migalhas do orvalho,
matam a sede de trezentos anos,
antigas que são na calmaria.
Perturbam as passadas na calçada,
certas de grata companhia.
Caladas,
como murchas de perigo,
candeias de noite alta
de martírio.
Seguramente a pedra será sempre dura.
Fugitiva
entre crimes e ousadias,
nula por vocação
enjeitada,
mordaz entre golpes e morfinas
na dura razão de não ser nada.
Persegue-se a si própria
a rocha escura,
servil
de idioma derrotado,
cortina que se prende ao fechar,
num salão
onde vergonha é acabar.
Seguramente a pedra será sempre só.
Por vontade,
por motivo,
por ser pó.

ao som de Stoa "Tharmas"

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