abril 19, 2005

Depois do minuto anterior e antes do próximo

De tempos em tempos, descia a rua até ao jardim, sentava-me num banco de onde pudesse ver o coreto e algum mar e ficava ali, sem decisões nem ponteiros de relógio. Via as senhoras de regresso do mercado, alguns gritos de crianças soltos pelas férias, adivinhava um poeta no olhar vago de alguém que passava, a pressa de um seminarista, o suspiro da vendedora de gelados que ainda não tinha feito um tostão naquela manhã. À volta, um frio miudinho, o lago dos peixes vermelhos, o jardineiro que varre as folhas secas, os restos de orvalho que a escuridão gosta de oferecer. E a vida no andar desajeitado dos patos e na menina que colhe flores, de cócoras, sujando a borda do vestido claro.
De tempos em tempos, descer a rua até ao jardim, era a única forma de me convencer a manter-me vivo. Acordava todas as manhãs bem cedo, perseguindo uma sensação de menino, quando quase de madrugada, tremendo de frio, esperava a janela do meu amigo abrir-se e indicar a brincadeira. Era um arrepio de água gelada na cara, os ténis calçados à pressa e escada abaixo, até à porta que teimava em ranger e que eu abria com cuidados de equilibrista. Era a imagem do alfaiate, das plantas nos vasos, dos restos de jogos no cimento molhado, das traineiras que avisavam a chagada, de horas e minutos simples em amanhãs sossegados. E sobretudo ver as coisas como elas são, sem intenções, sem motivos para mudar só por mudar. Ver o adro da igreja como adro da igreja, o hospital velho como um velho prédio sem significado, o café da rampa como o balcão onde se pediam as pastilhas, a rua como o refúgio das alquimias. E quando o sol desaparecia por detrás das nuvens, levantava-me do banco de jardim, olhava em volta à procura de algo que me esquecera e regressava a casa. De tempos em tempos, sorria. Lembrava-me da doca e do quiosque e sorria. Lembrava-me de existir há muito, antes da vida automática, antes das 7 da manhã e dos bons dias de obrigação. Antes dos cafés e dos pacotes de açucar amachucados no pires.
De tempos em tempos, fico mudo e sonolento. Esqueço o caminho até ao jardim e não consigo recordar a cor dos bancos junto ao coreto. Acendo um cigarro e fico a olhar qualquer coisa, enquanto o fumo me faz companhia. E depois de alguns minutos, volto a existir. Por estar aqui...

ao som de Beth Orton "So Much More"

1 comentário:

the one disse...

A cor dos bancos era verde, verde escura quando éramos meninos, verde seca quando crescemos, madeira apodrecida enquanto passeava a mais velha no carrinho. Agora ao compasso dessa tal vida automatica, só areia, cimento e uma rede que nos estrangula a vista embaciada.