abril 30, 2005

Laço sem corda

Queres-me? Não sei se deva desdobrar-me e mostrar o contorno dos segredos cor de deserto. Vou pensar nisso. Os minutos que demorar a minha escrita. Mais que isso, não. Seria doentio. Ou indiferente.
Sabes, li com vagar algumas linhas que a brisa de fim de tarde teimava em estremecer. Por entre os cortinados, os contornos da cidade são sempre esguios e atraentes. É por isso que baixo os estores quando tenho a janelas abertas. Sinto o sopro do mundo lá fora, mas mantenho o meu egoísmo intacto. Intocável. Imaculado. É isto, arrastar a existência entre tabacos horizontais e alguma filosofia de pacote, ziguezagueando nos passeios e nas esplanadas de café de bairro, esgotando as matrizes rodoviárias em manobras acidentais e repetindo as mesmas ruas, outra e outra vez.
Às vezes, atravesso a ponte, só uma delas, vagueio na outra margem à procura de cenários para um filme, imitando estrelas de rock, cansadas pelo vai-vém do seu sucesso, mudos pelo halo brilhante da ignorância que escolheram. Sofro de vertigens. Encho-me de iogurtes com sabores estranhos, encarando o objectivo de me sentir outra pessoa. Bebo chávenas de café com açucar. Peço sempre a mesma marca de álcool. Repito com fervor religioso, o local de suicídio. Alcanço nas canções que levarei para uma ilha deserta, a perfeição e a fé. Em suma, escrevo por um sentido de estado, uma responsabilidade caótica de desmaiar durante a entrega do prémio nobel, um desvio na maré inconcebível do marasmo. E isso não será amor?
Ainda penso. Nisso? Não sei.

Ao som de Rheingold "Dreiklang Dimensionen"

1 comentário:

Alirka disse...

ontem dei um tiro no pé e hoje estranhamente não coxeio. Porque é que as pessoas insistem em nos perdoar coisas que não perdoamos a nós próprios?...que tudo te seja leve... "Será isso o amor? Ainda penso. Nisso? Não sei."