abril 22, 2005

Subtilezas

Ela corre rua abaixo, perseguida por três. Vestem roupas justas e escuras. Têm no pulso direito uma marca. Não consigo ver a cor. Ela grita, enquanto na corrida vai esbarrando nos espelhos dos carros. Tem a camisa rasgada. Os olhos também. Chora traços negros e sente perto o fim. Eles, os três, não forçam a passada. Ganham-lhe tempo e provocam-lhe o pavor. Sabem o que podem conseguir e não o querem nem um segundo mais cedo. Sabem do que falam. E calam-se aos gritos da vitima. Sugam cada momento e cada lágrima. Sabem prolongar o prazer.
Um individuo vestido com um fato vulgar, tenta o gesto, contagiado pelo terror dela. Ao passar o segundo dos três, tenta barrar-lhe a passagem. O segundo dos três, sem o olhar, abate-o com dois tiros na cara. Continuou rua abaixo. As pessoas que sobem, fundem-se com as paredes e as montras. Arfam na tensão que lhes elimina o grito. Deixam-se ultrapassar pelo cenário. O primeiro dos três, sem parar, emite a recomendação em tom de ordem. Os outros respondem. Em estrangeiro. Um qualquer. Ela tropeça e cai, esgotada por um remoinho de horror e cansaço abissal. Sem conseguir levantar-se, arranha a garganta com a dor que antecipa. Rasgou a saia e só conserva um sapato. De salto partido.
Quando eles chegam ao pé dela, está alagada em suor. E medo. Tapa a cara com as mãos e sente a pausa. Os três, rodeiam-na. Têm botas pretas, com atacadores azul forte. Um deles raspa com a biqueira no chão. Nas mãos, seguram com saber navalhas de lâmina cónica. A do primeiro tem recortes de traço medieval. Peça única, certamente. Não sorriem, não falam, apenas a olham deitada no chão, admitindo a desigualdade assumida. Sem qualquer ordem ou sinal, exactamente ao mesmo tempo, rasgam-na de cima abaixo, pressionando o metal na carne morna. Não pestanejam aos salpicos de sangue e esboçam formas quase geométricas no corpo pálido. Sem aviso, imobilizam-se ao mesmo tempo e depois de um derradeiro olhar, levantam-se e limpam as lâminas às calças, junto ao joelho. Guardam-nas no bolso de dentro do blusão. Com um olhar mais calmo e repousado, aproximam-se da berma do passeio e chamam um táxi que tinha parado no inicio da rua. O segundo, ainda olhou com firmeza para o líder. Este encolheu os ombros. Nunca se importava com a cor dos táxis.

Ao som de Probot "Shake Your Blood"

1 comentário:

Alirka disse...

Vinha a subir a rua, pensava em como o meu autismo contamina os lençóis da cama, a loiça empilhada no lavatorio, os sacos da mercearia por arrumar e de repente dei com ela no chão tombada e nua, ensanguentada,e segui rua acima, como teria seguido, se me tivessem pedido para voltar para trás.