abril 16, 2005

Uma intimidade

Devagar, no meio do caos e da ternura, com um copo de vinho ao alcance da minha mão, reservo-me a um fim de frase. Com a força que uma casa vazia me oferece, desaguo no egoísmo e quero-me só para mim. Viajo sentado, a três mil quilómetros por momento, ultrapassando as recordações e as tentativas de esconderijo. Empurro as portas entreabertas, vagueio de quarto em quarto, desço as escadas mais que uma vez, olho e procuro só para me lembrar de tudo. E tudo ficou ali, escondido na terra revolvida, nos espinhos das rosas que a minha avó plantava, na água que secou no tanque, nos vasos vazios à espera de ontem. E como ontem, o silêncio vem de fora. Aqui há barulho, pratos arrumados no seu lugar de sempre, passos que não se dão por ser tarde. Demasiado tarde. Lá fora, o céu azul resiste à tentação. Vejo-o daqui, sempre com pressa que a noite chegue. E porque a pressa governa o tempo, lá fora já tudo é diferente, as árvores, os peixes, as pessoas e as vendedoras de pevides. Lá fora, o que existe já acabou. E aqui, o que já acabou continua a existir.

ao som de Eurythmics "I save the world today"

1 comentário:

Alirka disse...

um texto a fazer-me lembrar que num passado próximo também tive uma avó e também eu senti a magia própria de cada espaço recem desabitado, cada espaço que se muta com o adensar do silêncio, um silêncio espesso a que as coisas, todas as coisas, resistem no pânico sofrego do vazio e dos sacos do lixo verdes.