maio 05, 2005

Chambre de Nuit

No conforto do canto escuro, é bom esperar pelo fim. Mesmo se o fim , não é o que se escolhe. A almofada entre os braços e o amigo imaginário ao lado, muito atento e muito calado, são o começo perfeito para qualquer fim. Trauteie-se uma canção que fale de miragens e deixe-se os minutos tomarem conta do resto. Já não se ouve a vida passar, mesmo se o movimento continua lá fora. E depois, não faz mal se o telefone não toca, ou se as cartas chegam sempre abertas. O interesse é coisa de ontem. Cheira a bafio. Aqui, no canto escuro, as histórias andam por outras estradas. Basta mudar a posição do corpo, nem que seja um milímetro, para o destino ter outro contorno e a razão, sabor diferente. As cores têm tons de pausa. Aqueles tons de quem espera uma fatalidade. É o que acontece nos cantos escuros: Esperam-se fatalidades, como comboios atrasados, convencidos da sua importância capital.
E alturas em que o canto escuro é só um suspiro ou um ronronar aconchegado. São as horas da condescendencia e do chá arrefecido. São as contas de uma pulseira que estava no sotão, coberta de pó. São as migalhas do bocado de pão que enrijece em cima da mesa. São as bolachas que sabem melhor amolecidas. E com a almofada entre os braços, tudo parece flanela e muito limpo.
É assim o canto escuro. Doce e amargo como uma canção do tempo da guerra. O fim tarda em chegar, ficam os pés dormentes a as pernas, doridas. E num repente, o canto escuro é uma sala de baile envelhecida, mal iluminada, onde no canto mais escuro, uma banda ultrapassada toca canções vagas e dolentes que apetece ouvir. As cadeiras são de veludo gasto e os reposteiros pesam nas arcadas. O relógio, descomunal de dourados impossíveis, está parado e o tempo, interrompido. Se existe vida em mais algum lugar, ela é dispensável. Aqui, no canto escuro, espera-se o fim. Um qualquer. Mesmo se não é o que se escolhe.

Ao som de Les Negresses Vertes "Leila"

1 comentário:

uma delas disse...

anda cá...