maio 05, 2005

Fresta

No bolso esquerdo, o isqueiro que a mulher da sua vida lhe deu. Na gaveta, o relógio relembrado tantas vezes. Na porta da rua, as chaves e a serigrafia de um homossexual assumido, de dentes amarelos e casaco branco de lã grossa. Nos tímpanos, a canção de sempre. A que fala do amor, do celulóide e de um espasmo calmo e mudo. Na boca, um charuto com sabor a ilha e uma tentativa de sorriso. Nos olhos, os contornos turvos dos prédios e os seios escolhidos. No tacto, as chaves do automóvel. No olfacto, o copo. Na idéia, turbilhões, amidos azul claro, tormentas com chuva curta, peles que se tocam, perfumes. Na alma, seja lá o que isso significa, a encruzilhada. E na realidade, todos os caminhos.

Ao som de The Passions "I´m in love with a german film star"

2 comentários:

Alirka disse...
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Alirka disse...

Chove. Primeiro não sabia se era só dentro de mim. Depois resolvi levantar-me e indagar as vidraças. Chovia. Recordo vagamente o sonho tenebroso que me fez despertar. Fumo, da cidade nada mais que uma água escura de lavar predios ensanguentados de pó. Chove lá fora e aqui comigo, dentro em mim.