maio 20, 2005

Mim

A qualquer hora da noite, esfrangalhando células e faltas de apetite, há um ponto de onde não se pode regressar. São 2 horas e 45 minutos e a distância que me separa da auto-estrada, é maior do que a chave na porta de entrada e do botão do elevador. É esta mania da perfeição, da gravação exacta, das chaves do carro na gaveta, do isqueiro meio cheio e da bebida esquecida no copo. É uma irritação que não descola, um algodão encharcado de álcool que se passa no pescoço e refresca o instante. Um minuto mais na conta que o tempo insiste em apresentar, mesmo antes da sobremesa.
Não gosto de falar em noites perdidas. Não acho que as tenha perdido. Encontrei sempre qualquer coisa brilhante, em todas elas. Começar ou terminar um vício, bocados de sono, canções que nunca tinha ouvido com cuidado, vontades ou amanheceres. Não gosto de falar dos momentos escondidos da minha infância, mas não há noite que deixe passar em claro o que fiz, o que deixei de fazer, os caminhos, as manhãs bem cedo, a areia, os tufos amarelecidos pelo vento, as páginas soltas de histórias que me diziam respeito. Lembro cada momento, cada minuto que vale a pena retornar, como frases e palavras que nunca disse a ninguém. Guardo-as sem lhes reconhecer a dicção. É como uma fábrica que só depois de morta me apaixonou. Vagueei pelos seus escombros, toquei nas paredes esgravatadas, demorei-me junto aos ferros retorcidos, desejei entrar na miragem de algumas placas incompletas, tornei-me curioso da ruína e da desolação. E lembro-me dela como uma mulher. Uma que se quer esquecer, mesmo se regressamos onde a vimos pela primeira vez. Mesmo se fugimos dela em linha pouco recta.
Os fins abruptos provocam-me uma certa amargura, mas este, imponho-me a mim mesmo.

Ao som de Sofa Surfers "Sofa Rockers (Richard Dorfmeister Remix)"

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