maio 03, 2005

Por instantes

Antes do filme acabar, amachuco as cartas de amor e num repente, saio em direcção à chuva. Páro no meio da rua e sem destino preferido, fico a ouvir o ruído molhado que toca no chão. Não me consigo mexer. Sou encharcado sem timidez ou sedução. Apenas quero sentir a chuva na cara e nas mãos, deixar as gotas de água escorrerem sobre mim, soltas, possíveis. O balanço das árvores, as luzes dos apartamentos, os passos longínquos que fogem da tormenta, um alarme esquecido, um néon, um bocado de cidade. E debaixo das gotas cheias, com o caos ali tão perto, rodeio-me da serenidade mais pérola deste mundo. Vejo num segundo as imagens que me modelaram. O topo do edifício, a morte que se aproxima, a mão ensanguentada, uns olhos azuis, gulosos de vida, um medo que se esfuma, a violência que no instante seguinte já não existe. E a chuva, terna, lunática, absolvição de uma última noite. Como agora, nesta rua, sem horas, só, a chuva como senhora de um desejo que não sei explicar. Como estas palavras que não deveria mostrar.

Ao som de The Paradise Hotel "Drive"

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