maio 31, 2005

Selva

Remarcar o compasso de um assunto entre dois corpos e depois, insistir na fragrância de um momento a sós. Era cedo, preparava-se uma trovoada com a teimosia de um vento de sul, a roupa à janela ondulava de inquietação, o meu olhar percorreu o corpo dela, sem pensar em apetites nem consequências. Habituei-me a vê-la quase todos os dias, mas desta forma acho que nunca. De mãos nos bolsos, sem sorriso, encostado ao fogão, bastava-me violá-la com os olhos, revirá-la do avesso, sem intenções, demorando solenidades nos seios, nos vincos das coxas, num imperceptível gesto de entrega que se alongava ao ritmo da minha imobilidade. O telefone tocou e nem me apercebi quando o atendedor apitou. Os copos e as chávenas sujas em cima do lavatório, esperavam em silêncio. Ela quis sorrir e não conseguiu. Eu acho que a queria muito séria, quase zangada ou mesmo triste. Acho que fazia parte da fantasia. Acho, mas não tenho a certeza. Avancei, agarrei-a pelos ombros como se a fosse repreender, mas deixei escorregar os braços pelas suas costas suadas. Ela não se mexeu. Beijei-lhe o pescoço com uma sofreguidão que não me conhecia. Mordi-lhe o ombro e lambi a marca dos meus dentes. Olhei-a, olhos nos olhos, passei o meu polegar pelos seus lábios e forcei, à procura da língua. Ela resistiu. Pareceu-me que lhe tinham brilhado os olhos. Nesse preciso segundo, abracei-a e puxei-a com demasiada força para o chão. Sem oferecer qualquer resistência, abriu as pernas e enlaçou-me como se fosse um animal. Então, olhei os seus olhos uma última vez e aceitando o empenho, fui também animal.

Ao som de La Floa Maldita "L´Enfer Confortable"

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