junho 19, 2005

Mesmo se pensares para outro alguém

E depois, por detrás da mesa e das garrafas vazias, dependendo do relógio parado e do telemóvel desligado, com a camisa rasgada por um impulso, fibrilhando a noite com o resto de tarde e preferindo um hálito a cerveja vermelha, fico pouco quieto à procura de palavras vãs. Relego-te para o último lugar da espécie. Prevejo o teu desalinho, as meias rasgadas, as ligas presas no suor. E na boca um cigarro apagado à espera de um isqueiro... ou de um fósforo. Penteio-te com modos virtuais, aspirando o perfume dessa juba negra que me indicia a transgressão. Peso o teu valor de fêmea entre caixotes de tecidos e fardos de palha seca. Pergunto-te a idade, mas respondes-me com um rugido. Ou uma ameaça, não me lembro bem. Enquanto decido passar a língua nos teus pés nus, insisto no grau de condessa que possuis. É tarde, na escala dos humanos. Na tua, apenas atraso.

1 comentário:

Anónimo disse...

A máquina do tempo

Por trás de uma mesa de espumantes, bem bebidos, um Conde branco e uma Condessa negra viviam o gozo da sua beleza. O Conde negro tinha, durante vinte anos, enfiado fio numa máquina. Percebeu um dia que a máquina estava acabada. A Condessa tinha esperado por ele, durante vinte anos, com uma maquilhagem posta dez minutos antes da hora certa.
O Conde, emigrado e esperto, percebeu que enfiar cerveja num copo era mais fácil que fio em polis. Fez fortuna, livrou-se de hipotecas, de ambições vãs e a Condessa achou-se Marquesa.
Optaram pelo delicodoce de uma cerveja vermelha e passaram outros vinte anos. Quarenta anos de fábrica e de tasca ocupam muito tempo, mas naquela viagem pelo tempo estavam, num flash, a ver pobres humanos que vivem para o verde das notas e só para esse verde.
Pobres humanos verdes aprendam com os Condes, desta história, que nem o Euro nem o Dólar compram a máquina do tempo.

Ao som de Madalena Eglésias, em particular Ele e Ela.

FF