junho 08, 2005

Três pancadas na porta

As calças de cabedal como almofada e os longos cabelos em forma de lençol, trairam-me a pausa. Olhei para ela como um menino de coro. Creio que corei. Apanhei a camisa amarrotada e atirei-a para cima da cama. Passei as mãos pelo cabelo e senti-me meio adormecido. Estava acordado há quase dois dias. A boca sabia-me a tabaco e a restos de café requentado. Afastei as cortinas e olhei pela janela. A mota estava lá fora. O carro também. Coberto de pó. Sentei-me no sofá vermelho e tirei as botas a custo. Encostei-me e deixei-me ficar.
Quando acordei, não abri logo os olhos. Tinha a certeza que ela se tinha ido embora. Esperei os segundos que me pareceram os bastantes e vi a cama desfeita. Vazia. Na minha inocência, procurei algum bilhete escrito. Sorri. À falta de palavras, estava uma garrafa cheia na mesa. Dois copos. E no cinzeiro, um cigarro quase intacto. Num dos copos, como um presente de Natal, a marca de baton. Levantei-me, entrei na casa de banho e liguei o duche. Despi-me, olhei-me ao espelho com masoquismo e entrei na banheira. Demorei imenso tempo. Fechei as torneiras, usei a toalha e deitei-me na cama, sem me tapar. Não tenho cabelos compridos.

Ao som de The Dickies "Nights in White Satin"

2 comentários:

Anónimo disse...

Eu devia estar a fazer outra “cousa”

Dei comigo a pensar em Vitorino Nemésio, que tão bem é citado numa Universidade, que de tão Católica se entrega a um Compromisso Portugal, compromisso com um ultraliberalismo que nem se lembra duma “cousa” chamada Família. De Igreja em Igreja recheada de ouro andámos para trás no tempo, caminhámos para o valor da moeda esquecendo os valores pós bárbaros. Entretanto adormeci…
O dia já ia longo, a poeira vermelhava meus olhos, a caminhada ainda era longa, lingotes de ouro achados num avião perdido algures no México carregavam a minha mochila de campista, que nunca fui. Apeteceu-me fumar um cigarro, melhor um cubano, mas a distância era grande. Não fumei, dei outra volta na cama e acordei para outro sonho. Num melodrama Ítalo-Americano salvei uma jovem das garras de um mafioso. Voltei a acordar, já não queria fumar, apetecia-me voar e voei para a banheira.
O Sol lá fora já nascera, enquanto eu salvava a jovem estudante de Medicina Veterinária. Feita a barba quis recuperar a minha dignidade, ser pirata e detective numa só noite não é louvável. Olhei para o cinzeiro, nem marca de cigarro nem de cubano, mirei a prateleira e lá estavam os cubanos intactos à espera de uma noite de Verão, tranquilizei-me, nem sombra de ressaca. Parti em busca da dignidade, mas afinal eu estava mesmo no México, olhei para o espelho retrovisor e não tinha olhos vermelhos, também não tinha barras de ouro, pensei que o sonho era uma premonição e parti em busca de uma jovem para salvar, saiu-me um traste, então pensei “já só falta cortar o cabelo”.
Cortei o cabelo, o barbeiro desta vez estava calado, pensei que ainda estava a dormir, mas não, ele falou, eu sim estava ainda no sonho, sai voando de novo como se quisesse acordar de vez. Consegui, mas azar dos azares ouvi as notícias do dia e decidi voltar a dormir, mas de novo não consegui porque não tinha mesmo acordado.
Desde a aventura mexicana que não consigo acordar…
A propósito, ninguém reparou que cortei o cabelo, se calhar o barbeiro não existe mesmo, por isso esteve calado.
FF

“Ao som de musica celestial”

Anónimo disse...

Manhã Cinzenta

O meu bloguista fez greve. Greve? Um bloguista não faz greve, ninguém faz greve aos sentimentos e nem há machado que corte a raiz ao pensamento. Quem sonha com um mundo melhor acredita que cada um dos seus movimentos fará desse mundo um mundo melhor.
Mas o meu bloguista fez greve. Será grave?
Na sua insistência e no meu sonho não há dessas coisas perniciosas. O sonho, o sonho, ele foi procurar o meu sonho?
O meu sonho Mexicano prolongou-se por muitas noites, mas acordei finalmente, não por vontade própria mas porque já não se pode sonhar!
Mas continuei a sonhar como um imenso chato que sonha, sonha, sonha e sonha. Já não estava lá no México, estava naquela manhã cinzenta.
A manhã cinzenta aconteceu, numa manhã cinzenta. Sim numa manhã. Uma daquelas que chegam depois de muitas solarengas, só que nas estrelas da véspera estava escrito que a manhã seguinte seria a primeira de muitas da minha vida, nessa manhã cinzenta houve sorrisos, sinos e o Amor acabou por acontecer, mais tarde.
O Amor aconteceu, não na manhã cinzenta, não nas manhãs seguintes, nem nas outras, o Amor aconteceu porque estava escrito nas estrelas de muitas outras noites.
Naquela manhã cinzenta uma blusa laranja, uma eterna saia de ganga e um joelho bronzeado ficaram retidos numa imagem que nem mil anos apagarão.
Naquela manhã cinzenta o Sol brilhou em dois corações e desde então não há manhãs cinzentas, nem que as sejam, desde então se chove é um bom dia para amar, se troveja é um bom dia para estar de mão na mão e se faz Sol é um dia muito bom.
Se numa manhã cinzenta eu partir, de certeza que aquele dia vai voltar a acontecer… numa manhã cinzenta.

Ao som de José Luís Perales, só podia dar isto.

FF