agosto 03, 2005

O sorriso do senhor deputado

Doido de ciúme, Cravon bateu com a porta e desceu a rua de empedrado, com passos furiosos e recalcados. A aba da casaca batia-lhe na perna, com o compasso de uma tragédia em três movimentos. Os olhos vagamente lacrimejantes, mastigavam a revolta incontida de anos e anos de confiança e solenidade, misturados com a pureza de coração que desejava sentir e acariciar, fruto de uma mãe romântica e dos costumados silêncios do pai. Sentia-se traído, ladeado por vagas de lodo e mentira, mergulhado numa escuridão ateada pela tarde de sol no alto. Acelerando o passo, Cravon percorreu as ruas que julgava conhecer. Palmilhou-as até se sentir exausto. E mesmo com o cansaço a toldar-lhe a vista, não admitia parar. Queria esmagar com aquelas passadas remoídas o desgosto e a mágoa de nada voltar a ser como dantes. Pensava no suicídio, na desonra, na chacota e na solidão. Pensava sobretudo em fugir para longe e esquecer tudo o que sabia. Ou julgava saber.
Parou por um instante e levou a mão ao bolso, procurando o grande lenço branco para lhe enxugar a testa. Estava alagado. O calor do mês de Agosto, era cruel na cidade. Ao tirar o lenço, sentiu algo cair no chão. Olhou abismado para uma pulseira negra, de pontas douradas, que se tocavam como um beijo furtivo. Baixou-se, pegou-lhe e sentiu uma dor aguda. Uma das pontas, demasiado afiadas, entrou-lhe na carne e sugou-lhe algumas gotas do seu sangue. Quando levou a mão à boca, a estancar a ferida, jurou sentir o sabor dos beijos dela. Os que trocavam furtivamente, debaixo das arcadas do convento. Olhou admirado a jóia, como se assistisse a uma assombração. Desejou estar enganado, ser vitima de uma maquinação, estar louco, permanecer defunto. Encostou-se à parede desbotada, como se cambaleasse por uma tontura. Olhou uma vez mais a pulseira, medindo-lhe a infâmia. Olhou em frente, vendo as ondas de calor sobre o lajedo, alcançando a pedra despida dos muros do hospício. Sem saber como, sentiu alento. Compôs a gravata, os punhos da camisa, puxou a casaca com brio, soprando-lhe a poeira e avançou decidido, com um sorriso nos lábios.
Chegado ao portão enferrujado do instituto, tirou o chapéu e pediu para falar com o encarregado. Foi recebido com cortesia e disse ao que vinha:
- Quero fazer-me instalar. Sou doido varrido, perigo a segurança alheia, desejo o mal a todas as criaturas vivas e pretendo a ruína do mundo. Faça o favor, leve-me e proponha-me o vosso tratamento mais rigoroso.
Sem mostrar qualquer surpresa, o encarregado sorriu com gentileza deslocada e com um brilho terno no olhar:
- Meu caro, não pode ser. Acredite que compreendo as suas motivações. Não as conheço, mas compreendo. Mas a verdade é que não pode ser. - A razão da recusa começava a ganhar forma. - Os regulamentos são inequívocos. A maldade, o crime de sangue, o estupro, até o caos, não são prova de demência ou imputabilidade. Apenas humanidade, espirito de sociedade, percebe. Não posso encerrá-lo numa cela, submetê-lo a um tratamento cruel e quiçá feroz, atirá-lo ao esquecimento até ao fim do seu tempo, apenas por demonstrar cidadania e normalidade. Sabe que mais, com esses propósitos empreendedores, essa solenidade discreta e essa filosofia de vida tão vincada, concorra ao Parlamento, faça-se político, ainda vai a ministro.
Cravon ficou imóvel por alguns segundos. Sem atingir completamente o porquê, encontrava nas palavras do encarregado a verdade do mundo. Pelo menos, deste lado de cá do mar. Reconheceu-lhes dignidade, até alguns resquíceos de uma a amizade que podia ter existido. Compôs a gravata, os punhos da camisa e apertou vigorosamente a mão do encarregado:
- Compreendo. Agradeço-lhe a atenção. Acredite no meu eterno reconhecimento. Boas tardes.
Pegou no chapéu e saíu. Desceu o passeio até à entrada, rodeado de árvores e plantas raras, numa alegoria de oásis. Tirou o chapéu ao porteiro e seguiu pela rua junto ao rio. As suas passadas tinham perdido a fúria. O seu sorriso sereno, prometia bonanças. Levou a mão ao bolso e os seus dedos encontraram a pulseira negra. Tirou-a, abriu a mão à luz do fim do dia e com um suspiro milenar, atirou-a ao rio.
Coberto de confiança, Cravon compôs a gravata, os punhos da camisa, puxou a casaca com brio e avançou decidido, com o sorriso nos lábios.

Ao som de Carlos Libedinsky "Otra Luna"

2 comentários:

Anónimo disse...

Nos momentos em que a política nos leva à locura deixo os dedos correr sobre um teclado, o senhor deputado sorri na sua locura e eu que procuro dar despacho já não encontro a posição certa para uma caneta esquecida na gaveta mais próxima. É a loucura dos tempos,descarregamos num teclado as frustações, julgamos sumáriamente os políticos de ocasião, entramos num ciclo de valoração de velhos políticos como se eles nos pudessem dar o brilho dos sonhos de outrora.Quem está certo? O vigarista de outrora, ou a formiga dos anos 80, ou quem sabe o poeta Argelino?
Estava eu tão sonhador quando fui político, como estou hoje enquanto gestor de uma pequena fábrica de sonhos. Hoje posso gerir sonhos, magno poder, sei que uma decisão errada pode apagar um futuro líder, sei, sei, sei...
Mas eu também sonho e tive um pesadelo, camisa suada e ausência de chão, caminhava e tinha de cair porque não tinha chão, mas caminhava sem chão, esperando a comunicação do momento da queda.
Acordei com falta de ar e fui gerir a fábrica, por lá tudo bem. Mas de repente faltou-me chão........

Anónimo disse...

Bravo, Anônimo!
Bravo!!!
Shirley