agosto 05, 2005

Por ter de ser rápidamente

Por detrás do sono há uma intenção, um dever solene de regularizar os amores, as entregas de carícias e de ódios de estimação. A nicotina e os papéis quimicos levantam as suspeitas do costume, os presos estão presos, os guardas persistem nas suas rondas e todas as formalidades resistem ao tempo e às flores no caminho. A qualidade compra-se a golpes de sabre, a sementes de girassol descuidadas, a lágrimas com sabor a cereja, a chamadas telefónicas de meio segundo, ou talvez menos. A vida vende-se à velocidade do tempo. As velhas engasgam-se, os recém nascidos contam histórias de assombrar, os paraplégicos riem sem conseguir parar, as rotinas mostram conclusões fundamentais e todas as crianças, todas, vestem fatos de macaco amarelos com letras pretas. O sonho é real, bebe café ao nosso lado, encostado ao balcão sempre sujo de açucar e migalhas. O sonho paga com as mesmas moedas e cospe o hálito a queimado para o mesmo canto. Os uivos e os cigarros mal apagados formam coligações colossais, à medida de um faraó qualquer, ou então, daquele imperador que faz ginástica no gabinete do lado e já não se entende com o telefone pintado de algum tom de cor de rosa. Os envelopes continuam a rasgar-se com fúria e as cartas deitam-se fora sem se ler. Uma mera formalidade. Ou qualidade. Já não me lembro bem. À saída da câmara dos lordes, olho o céu e a estrada deserta, penso nos livros e nos programas de televisão que pretendi não conhecer e grito as palavras de ordem que repeti, uma e outra vez, na penumbra da dispensa da casa do lado. Uma formalidade. Nem estou bem, nem estou mal, apenas espero o inicio da mensagem, da profecia que ainda me faz sorrir, da ordem das coisas, dos tons de amarelo que ainda consigo recordar. Prefiro entrar em contradições, em ruas de um sentido só, nos cinemas que nao resistiram á falência. Não estudo, não trabalho, facilito os encontrões nas ruas cheias de gente. Entendo tudo isto com uma mera formalidade. Ou qualidade. Não me lembro muito bem.
À esquina, está um pedinte que um dia imaginei meu amigo. Páro junto dele, olho o seu olhar vazio, dispo o meu casaco, tiro os sapatos e deixo-os junto aos seus sacos. Com eles, deixo a minha chave do carro e de casa. Com ele, deixo as minhas invenções e as minhas desculpas. Uma mera formalidade. Ou uma qualidade. Já não me lembro bem.

Ao som de CCCP "Io Sto Bene"

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