outubro 11, 2005

Outro lado do mundo que estiver certo

Nunca fui. Nem sei se terei coragem de lá chegar. Tão pouco adivinho se algo ou alguém, espera pacientemente a minha chegada, porque paciência nem todos a têm. Creio chamar-se Soledad. Mas posso ter-me enganado. Ou então, enganaram-me. Já aconteceu. Deve ter uma família, daquelas cheias de primas e tios, cunhados de olhar diurno e vizinhas que conhecem as histórias e os segredos. Devem almoçar ao domingo, amontoando-se ao lado dos gritos das crianças e das ladainhas dos mais antigos. Reparte-se a fartura com a fome dos outros dias. Dão-se graças, apenas porque sim, porque já os outros as davam. Vive-se.
Eu ainda aqui estou. Preferi sentir-me cómodo. E preferi a segurança da Calle Amberes. Por uma vez, a Zona Rosa possui a cor perfeita. Na varanda do quarto de hotel, fazendo esperar a chávena de café a ferver na Plaza Garibaldi, acabo um cigarro adoçicado e medito no meu egoísmo. O tal que me decidiu esconder aqui, longe de quem já perdeu a paciência de me esperar, de quem olha os filhos numa adoração desmedida e nunca sabe o dia de amanhã. Talvez amanhã procure este destino. Ou então, um outro qualquer. Um que me espere impacientemente.
Deixo cair o que resta do tabaco, piso os vestígios ainda acesos, olho uma última vez o edifício da American Express e saio do quarto deixando a janela aberta. O ar condicionado nunca funciona. Desço, atiro as boas noites ao Salvador que me responde em rima e fundo-me com a multidão. Na esquina com o Paseo de la Reforma, talvez incomodado com este rio de riqueza entre lixeiras e bairros miseráveis, decido deixar esfriar a chávena de café e procuro um táxi para regressar à existência normal. Espero bastante tempo por um vermelho. Não me sinto com muita sorte para tentar outra cor. Vou a Las Aguilas, bem depois da Barranca del Muerto. Ali vive Soledad. Lembrei-me de lhe ir conhecer os olhos, adoçar a boca das crianças com alguns rebuçados, ouvir as frases feitas dos avós. Lembrei-me de sentir a vida como ela realmente é.
A verdade é que sou demasiado óbvio. Não cheguei a Las Aguilas. Não conheci os olhos de Soledad. Apanhei o táxi, um vermelho bem sujo, guiado por um velhote de dentes podres.
- À donde, patrón?
Hesitei, num gesto próprio dos que não sabem o que fazer do tempo.
- À la Tabacalera.
- Si patrón.
Recostei-me. Doíam-me os rins. Tinha passado a tarde a escrever. Baboseiras e lugares comuns. Demasiado tempo livre, esta é a verdade.
- Dejéme en el Oxford. - O condutor sorriu. Conhecia o destino. Olhou-me pelo espelho e tentou adivinhar-me a tara. Voltou a sorrir, encolheu os ombros e acelerou sem vontade.
Boas intenções. O papel de parede do inferno. Enquanto Soledad olha os filhos que adormecem sob o carinho da mãe, eu, egoísta, bebo o álcool viciado e observo as putas com idade de velha, que se bamboleiam ao som dos tristes boleros que Carlitos insiste em tocar. Pacientemente.

Ao som de Brian Eno & David Byrne "Regiment"

1 comentário:

Anónimo disse...

As putas, as putas...
Eis o sangue masculino.
Shirley