dezembro 15, 2005

Faltaste ao pequeno-almoço

Espero-te na esquina. Na de sempre, a que reconheço até nas manhãs de nevoeiro cerrado, a que guarda o fumo dos cigarros e as palavras que deixo cair enquanto te espero. Imaginei-te repleta de pormenores antes de te ter visto pela primeira vez. Estava na esquina. Estava frio, um frio doce de açucar queimado às 7 da manhã. Procurei-te junto ao rio, no nascer do sol, na silhueta que passou ao longe apressando o passo para o autocarro. Procurei-te entre as escadas e no andar dos livros, ao balcão de tantos cafés, nos semáforos e nas cores que teimas em deixar onde páras para olhar as montras. Sem entender a ousadia, procurei-te nas mesas vazias junto ao bar. Procurei-te ao soar a música e entre as cabeças que ouvem de cor. Procurei-te entre a multidão, quase certo de um milagre ou de uma coincidência. Ao reencontrar-me só, regresso à esquina de sempre, à espera do afago do passeio descendente e das janelas sempre fechadas do prédio de varandas acabadas.
Ainda te espero. Um dia, um qualquer sem te esperar, nem querer. Na esquina, na de sempre, ou à porta do teatro ou numa passadeira rolante que nunca acaba. E no dia que não te esperar, vais aparecer. Com uma cor qualquer, de livro na mão, com um sorriso que tens só para ti e não dás a ninguém. E se te esperei de manhã, aparecerás à noitinha, antes de um jantar a uma hora que não se procura no relógio. Vais entrar, olhas em volta e sem ver o que procuras, vais encontrar. Eu espero-te. Na esquina de sempre. Sem te dizer qual.

Ao som de The Beloved "Sweet Harmony"

1 comentário:

Alirka disse...

e eu anseando por te poder dizer: amanhã é o último dia em que esperarei por ti, e contudo certa, de que esse amanhã nunca chegará.