março 22, 2006

Especiarias

Lentamente uso o olhar para a rever. Sentada numa almofada oriental, de olhos semicerrados e respiração sonolenta, motiva sabores tranquilos e temperos acres, próprio de um capricho. As velas acesas transformam-na num altar. Eu, calado, de sorriso oculto, prefiro senti-la no recanto de uma ideia. Aquela ideia que não se confessa nem se partilha, como um egoísmo mudo e solene, imune ao remorso e de cor morna. Por decreto, decido-a minha, registo-a como propriedade imensa, num acto ignóbil como quem rouba a obra de arte e a destrói, para mais ninguém a desejar. Lentamente, fecho os olhos e deixo-me ficar gravado na sua presença. Lentamente o espírito constrói-lhe uma fortaleza inexpugnável e ali a algema com fitas de seda e incensos. Depois de enterrar a chave, escondo o desejo e a certeza e invento uma religião. O seu deus, mantenho-o em cativeiro.

Ao som de "You Started Laughing"

1 comentário:

Anónimo disse...

Sublime, simplesmente sublime. vou passar horas neste teu espaço, é magnifico, estou decidida a fazer noitada, e sem sangria...para não perder pitada.
maria joão