março 14, 2006

Recado por dentro

Como um tango, a morte desbrava intempéries e bonanças, elos onde o momento e a emoção tomam conta, onde remoem e apertam num laço que custa luzir, esperando que se desfaça num instante, tal como o sonho se evapora depois de abrir os olhos. A vontade mastiga-se em migalhas, o sorriso sabe sempre a forçado, suspende-se a garfada no ar, com a culpa de um apetite inocente, hesita-se uma canção ou um adjectivo por ser longo demais. Como um tango, a morte desprende os linhos frágeis, revelando as cadências ferrugentas, alumiando ténuamente o lamento e um longo adeus pausado pelas lágrimas que nem se conseguem definir. É um piano demasiado afinado, onde a nota se multiplica na direcção errada. E tudo gira mais devagar, o tempo teima em diminuir o empenho, a flor permanece atenta e viçosa e ao longe o rio ondeia até à foz.
Eu estou aqui, junto à foz. Estou aqui, parado, encostado ao farol de paredes picadas por um mar que se obriga todos os dias, esperar por mais alguém. E mesmo se esse alguém não voltar a encostar-se ao farol, a luz irá varrer as águas à meia noite e o mar, teimoso, vai esperar como se não soubesse a notícia.

Ao som de Men Without Hats "Cocoricci (Le Tango des Voleurs)"

1 comentário:

macaso disse...

Talvez pouco poético da minha parte, perante tantas palavras mágicas, cheias de uma ternura escondida, mas quando penso em tango, penso numa frase que uso constantemente, ossos do ofício: É preciso dois para dançar o tango.