abril 04, 2006

Ontem, agora e já são verbos

Depois de fazer o inventário, lembro-me ter deixado um sofá beije e bordeaux, desconfortável, forrado a vinil, onde sentado junto à janela da varanda, perdi dias de nuvens e alguma chuva. Escrevia incontáveis linhas de uma espécie de dicionário infalível, onde me revia em todas as letras. Depois, pousava a caneta e olhava a rua, à procura de alguma camisola de cor ou de qualquer grito cúmplice. Retomava por mais uns minutos e sem deixar de manter a rua atenta, ouvia os ruídos da casa grande que se misturavam com cheiros de cozinha de provincia e ladaínhas próprias dos dias reconfortantes. Na sala principal o aquecedor ruminava com um ronronar de hábitos antigos. Aqui, na sala do piano, o frio costumava vir passar a noite. Sentado junto à janela da varanda, deixava a tarde terminar, sabia o momento certo das luzes se acenderem, esticava-me para ver a última traineira do dia e deixava-me estar com uma canção nos lábios à laia de moinha. Só o jantar me retirava deste entorpecimento e me devolvia ao mundo.
Será que vão longe essas dias?

Ao som de Talking Heads "Heaven"

2 comentários:

macaso disse...

"We cannot tear out a single page of our lives, but we can throw the whole book in the fire."

George Sand.

Anónimo disse...

A eterna saudade da casa mãe. Junta-te ao clube.
FF