abril 26, 2006

Sul

Ao sul, debaixo de um sol de filme e embalado pela violência de um beijo adiado para o próximo quilómetro, recuso-me a contar os minutos que sobram. Entrego-me à velocidade e ao corpo inerte da mulher de cabelo negro, que adormece ao meu lado. Adivinho-lhe os sonhos e alguma pressa por um destino perto do mar ou de uma cama de lençóis leves. Antecipo a gulodice de lhe mimar o pescoço e mergulhar no seu ronronar. Invejo-lhe a lânguidez.
Tenho na boca um sabor a pó que faz parte do resto. Da distância, do calor, da pressa que não se procura, do amor em pausa. Passo a mão na cara e torno macia a barba por fazer. Insisto em guiar encostado à porta, por desleixo e por vontade do vento. Acaricio o volante com a ponta dos dedos. Sorrio e sem olhar para o lado, regresso à estrada.

Ao som de Motorcycle Boy "Run Run Run"

2 comentários:

aliança disse...

Para Sul sempre vogando rumo ao sol, ao mar e aquela sensação de liberdade por muito cliché que possa parecer (aliás , eu gosto de clichés!)Na volta à estrada sinto um olhar que me envolve num casulo protector e reconfortante, continuo de olhos semi cerrados saboreando estes momentos.

Anónimo disse...

É sempre voltar à estrada quando a viagem é para onde de nunca deviamos ter partido.
James DeanII