maio 17, 2006

Alguns segundos entre chegadas

Devagar. Mais depressa. Sempre pela rua do casino e da loja de penhores. Tenho no bolso mais de duzentos cheques de pagamento militar, misturados com as gomas habituais e os fósforos de Tijuana. Já não me lembro para onde vou. Como entrei neste carro? Conheço o condutor? E os outros? Acabo com o cigarro do fulano da direita e nem tenho a certeza se é um cigarro. Depois se verá. Mais tarde. Quando acordar. Se acordar. Conheço a canção de algum lado, mas não interessa de onde. Algum sítio. Outro. Longe daqui. Ou perto?
Gostava de passar a mão na cara, mas não me apetece. Estranho este desejo de apetecer e não cumprir. Jovial, era a palavra. A outra era mentira. Bastavam as duas para me atirar ao rio, se ele houvesse. Aqui só asfalto e luzes esbatidas de copos altos e destinos cor de menta. Pela outra rua chegávamos mais depressa, mas é mesmo preciso chegar? É preciso estar atento. Ou acordado, não sei bem. Faz-me falta a enciclopédia. A de capa de marroquim como os chinelos do patrão. Nunca o vi. Sei-lhe bocados do nome. Os que interessam. Ele já me viu. Antes. Agora não o conheço. Nem sei onde está. Estará à porta? Espero que não. Prefiro ninguém à chegada. Só a porta encostada e uma cadeira confortável. De onde tirei esta palavra? Parece uma daquelas estradas de mansões milionárias, que sobe em serpentina e acaba num tufo e algumas pedras. Ao longe, o negócio e a rua principal. Não gosto de avenidas. Fazem-me mal. Provocam-me azia, da que dura toda a noite a passar.
Vou fechar os olhos. Abro-os, quando chegar.

Ao som de The Charlatans "Weirdo"

3 comentários:

natércia disse...

Eu gosto de avenidas. E de cidades. Grandes. A gente quase desaparece.

No campo é diferente. E nas ruas pequenas. Somos obrigados a reduzir-nos à nossa imensa insignificância.

Von disse...

Um segredo: também gosto de avenidas... mas vazias. E surdas.

Von

Anónimo disse...

Pois eu gosto da Avenida da Liberdade em hora de ponta e ao Domingo de manhã, gosto de a percorrer, gosto de sentir o aroma que sai dos prédios de escritórios, gosto de andar anónimo, gosto de recordar e recriar os momentos que só essa Avenida me pode dar.
James DeanII