maio 13, 2006

O cinzeiro está cheio


De manhã tudo será diferente.
Agora é tarde. Adormece-se por cansaço e por outros motivos elementares. Despem-se as camisas e atiram-se as meias para os cantos junto às portas. Bebe-se um copo de água que se desejou toda a tarde, fuma-se um último cigarro, inveja-se o vizinho do lado. Um olhar pelo jornal. A página do desporto embebida em usura, as letras que se desviam dos olhos parados, as notícias mornas quase frias. No topo dos prédios, os rebeldes de camisola de manga curta e dedos atentos, roubam os beijos que ainda restam. Um par, um ímpar, todos desejam ser iguais, nem que seja só por uma vez. De manhã tudo será diferente.
Em alguma cozinha ferve-se água e com muito cuidado juntam-se as folhas de chá que não secaram. Frita-se um ovo e come-se sem pão. Ensaia-se um sorriso, apenas porque sim. Porque se quer a lua mesmo sem luar. Lá em baixo os faróis dos carros fogem do sono. Procura-se um destino aberto. Um que não durma. Aqui, adormece-se por cansaço e por motivos confessáveis. Os lápis não se afiam, nem em dias de festa.
Aqui as horas têm sessenta minutos. Mastigam bocados de papel que ficaram em cima de uma mesa ou na caixa de correio que não fecha. No vagar de todos os dias, o bêbado arrasta os pés e de chave na mão, procura a infância. De manhã tudo será diferente. De manhã, tudo será igual.

Ao som de Brian Reitzell & Roger Manning Jr. "On the Subway"

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