agosto 28, 2006

250 gramas de sono

3 e meia da manhã.
Duas mulheres, uma loja quase a fechar, uma avenida que desce num zumbido de carris e cabos de electricidade. Impaciente, acordada entre duas insónias, a mulher de túnica roxa e casaco nocturno, procura um táxi rumo à evasão. Um drogado veraneante recita uma lengalenga mole e peganhenta, sumo de um frasco de cola “snifado” até à medula. Insiste numa história de vida, não necessariamente a dele. Procura a evasão sem se mexer dali. O táxi não aparece.
O fulano da loja, um indiano repetitivo de longos cabelos, insiste com a outra mulher. O vestido de noiva, de cauda e véu, rematado por pequenas rosas cintilantes, parece costurado à medida. É uma oportunidade única, como um casamento repetido vezes sem conta. A mulher compõe o véu, puxa ligeiramente a cauda e olha-se no vidro da montra. O indiano já fechou as luzes da loja. O drogado aproxima-se e conta-lhe o seu casamento. Um qualquer. A outra, desesperada, telefona para todo o lado. Deseja um táxi. Almeja o carrinho com a luzinha verde. Anseia a carripana com o sinal de livre, como se não houvesse amanhã. Ou depois de amanhã. Grita ao telemóvel, guincha por um transporte que as leve dali. O indiano aproveita e fecha a porta da loja, fugindo rua abaixo. O drogado explica que já foi desenhador de vestidos de noiva. Era bastante bom. Chegava a coser as mangas. E “snifava” frascos de cola durante as vernisages de apresentação.
Ao telemóvel, a mulher suplica por um táxi. Guincha em belga, em suevo, em búlgaro. O táxi, nada. A noiva roda e revê o reflexo da montra. O drogado relembra já ter sido bailarino. No “Ballet de Moscovo”. Ou de Buarcos, já não tem bem a certeza. Fazia o “Quebra Nozes” quando lhe caiu um enorme frasco de cola; em cima do nariz. A noiva diz que sim. Lembra-se de tudo. De tudo o que ele quiser. E roda outra vez ao sabor do reflexo da montra.
Da tempestade vem qualquer coisa parecida com a bonança. É o silêncio. A mulher, a outra, deixa cair o telemóvel e de boca aberta, seca de palavras, vê-o a descer a rua. Um riquexó. Um riquexó de verdade, com sedas, caracteres chineses e tudo. É conduzido por um nórdico platinado de colete às riscas e babouches cor de vinho. Pára junto delas, enquanto o drogado diz já ter sido nórdico. E dos bons.
- Estou livre – Diz o nórdico, com um leve sotaque de Xangai.
- Mas… mas somos duas. Duas! – E apontando – Ela está de vestido de noiva. Noiva! Com cauda e véu e tudo. – A outra, a noiva, aproveitou e rodou, mostrando a cauda em todo o seu esplendor.
- Já fui cauda. – Diz o drogado.
- Só tem um lugar. Um! E somos duas. Duas! E ela, ela está de…
- Um lugar, sim, seguro e assumidamente eficiente. – Interrompe o nórdico.
- Já fui eficiente. – Adianta o drogado.
- Outro lugar? – Continua o nórdico. – Mas arranja-se com a maior das simplicidades.
- Já fui simples. – Assume o drogado, com grande oportunidade.
A mulher está sem palavras. A outra, a noiva, roda mesmo sem ninguém lhe prestar atenção.
- É preciso mais um lugar? É para já. E pode escolher. – O nórdico sorri, prestável. – O que prefere? Uma carroça puxada por um burro ou um elefante com palanquim.
- Já fui elefa… – O drogado não conseguiu terminar a frase. A mulher, farta, pegou no telemóvel e rachou a cabeça ao drogado.
Depois, desceu a rua de riquexó. A noiva que vá de elefante.

Ao som de A Certain Ratio "Skipscada"

2 comentários:

aliança disse...

A certain deja vu!!!!

Alirka disse...

"O drogado não conseguiu terminar a frase", a Alirka agora, já não sabe nem como começá-las...