setembro 16, 2006

Adro

Depois do fumo me tocar o céu da boca, julguei ter chegado ao meu destino. Uma sucessão de minutos e bocados aleatórios de tempo, encerados e livres de pó como numa paranóia que se constrói com gosto, humedecendo os lábios e esperando por algum sinal da noite. Não costumo falar destas coisas. É desnecessário passar pelas alfândegas e declarar os rasgos da vida que nos serperteiam em baforadas de oxigénio, sujas ou limpas conforme o prejuízo, cruas ou alumiadas por velas ou lumes brandos. Volto a acender o cigarro que entretanto se apaga, vítima por não receber toda a atenção que diz ter direito, birrento porque tem de ser assim. Como eu, que procurava o céu nas varandas e nos horizontes de mar. Ainda o faço, mas apenas por embirração ou restos de dias que insisto em decorar. Ou nem insisto. Têm-me como refém, sem resgates inúteis ou interrogatórios estéreis. Deixam-me ficar à janela ou dentro do carro, como uma testemunha que se dúvida cuscuvilheira ou voyeur. Encomendam-me argumentos e recibos, páginas de papel cheias de riscos, sem pessoas nem nomes. E no fim de cada página, páro, sorrio e encontro-me exactamente no centro do universo, junto ao apeadeiro que me há-de recolher e oferecer o bilhete para o rápido das sete da tarde que nunca pára aqui. Então, procuro nos bolsos se ainda tenho cigarros que cheguem, pergunto ao porteiro onde posso jantar e demoro quase nada sentado à mesa, comendo tudo o que me apetece naquele momento, enquanto passo a considerar o empregado como amigo de infância. Bebo o café e observo todas as baforadas do meu tabaco, à procura de algo único. Visto o casaco, faço uma vénia, esqueço as moedas no pires e regresso. Na rua, tentando encontrar o aconchego de uma direcção cúmplice, esfregando os olhos pelo fumo ou por cansaço, evito enganar-me e peço ao deus que me conhece, uma noite na via láctea.

Ao som de The Church "Under the Milky Way"

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