outubro 20, 2006

O sol, o anjo e a fogueira

Durante um resto de Inverno, num momento de madrugada febril, recusei a capa que me ocultava a sombra e entreguei a um estranho as pérolas que guardava junto à pele. Contei-lhe o que pensava ser verdade, mentindo a certeza dos meus dias, quando as noites são o mel das veias que em mim palpitam. Mantive a mentira até ao fim, até agora que desfaleço neste catre. Sinto a caminhante perto, esquecendo pegadas na areia fina. Inventei este castelo, a aldeia e a falésia, até a mesa e o copo onde me torno novo. Fui preso, por me permitir o sonho. Perante o juíz, não confessei um nada. Mantive nas unhas os vestígios da clemência. E ao fim de um ano de cativeiro justo, sai para a rua, jovem, velho e triste. Nos bolsos, os papeis de outrora, as cartas que motivaram o crime. E do recorte que nunca quis guardar, apenas relembro o cumplice e a consistência alheia.
Agora, hoje, junto ao precipicio, releio as linhas que me desgraçaram. Engulo a chuva que me escorre a alma, cerrando os dentes de esquecido esmalte. A mim, a culpa dos meus dias. A ti, a revolta dessa noite.

Ao som de Ophelia´s Dream "Lady Magdalen"

2 comentários:

macaso disse...

Fico presa nas palavras.
As angústias servirão para nos fazer crescer?

macaso disse...

Quando me apetece engolir a chuva ela não está.