outubro 31, 2006

Ouvi mas não me lembro onde

Depois da única curva da rua, via-se a porta, a varanda e eles. Costumavam sentar-se no degrau da porta ou no passeio. Às vezes, no muro. Olhavam e gritavam um sorriso. Outras vezes não estavam lá. Olhava o rio pela fresta da rua estreita e segurava-me no rebordo da porta da garagem, à espera de qualquer coisa. Como banda sonora, lá fora tinha os barulhos de quem ia vivendo. Lá dentro, as intermináveis listas de descoberta e fitas com guitarras de quatro cordas de todas as cores. O tapete branco com geometrias azuis e verdes fazia parte da família e as fotografias mostravam gente desconhecida. A porta nunca se fechava e só por isso eu não consegui ser mais eu. Só me apercebi no dia que vi a sala sem o tapete e pude finalmente fechar a porta. Não cheguei a fechá-la.

Ao som de The Stranglers "The Raven"

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