dezembro 14, 2006

Em qualquer lado

Saiu do motel entalado entre a capela de casamentos e o carpinteiro de caixões, gingando a vontade de uma última noite de liberdade. Desceu a rua até ao cruzamento. Passavam camiões cheios de gado vindos do vale. Olhou o chão no momento que um pequeno lagarto lhe roçava o passo. Sorriu e esperou que desaparecesse na erva alta dos baldios. Atravessou a rua e dirigiu-se para as luzes. Do cigarro no canto da boca, apenas restava o filtro. Não se habituava aos fios de tabaco à solta na língua. Sossegou a ansiedade aos primeiros acordes de música poeirenta. Sentiu nos bolsos as moedas e entrou no primeiro bar.
Ao balcão, procurou a garrafa que o compreenderia. - Um rum. Escuro. - Sem palavras, alguém o serviu. Bebeu de um trago, recordando a sala, os sofás, os quadros e a fotografia. - Outro... Por favor. - Deu um pequeno gole e ficou a olhar o ambar. Lembrou-se da expressão, da voz, do recorte da impaciência suave e repousada. Lembrou-se da franqueza. E bebeu a ela. - Outro.

Ao som de Chris Eckman & Carla Torgerson "Bonnie and Clyde (Live)"

1 comentário:

macaso disse...

Ambar...laranja envelhecido...canela...especiarias de além-mar...o meu pregador...bolas de Natal.

Nunca sei se brindo à franqueza ou à fraqueza. As palavras são tão relativas.