dezembro 19, 2006

Primeira parte

Levantou-se do sofá e atirou o comando da televisão para o monte de almofadas junto à janela fechada. Bebeu um gole do copo de água e pouso-o com cuidado em cima de uma revista. Olhou em volta à procura de algo que lhe tivesse escapado. Não encontrou. Aconchegou o cachecol, procurou nos bolsos o isqueiro e o comprimido. Bateu com as palmas das mãos nas pernas e avançou para a porta. Olhou o telemóvel e esqueceu-o de imediato. Abriu a porta, deixando as chaves na fechadura do lado de dentro. Fechou a porta com os cuidados de um homem velho. Sorriu.

No elevador sentiu-se tentado a acender um cigarro. Desistiu. Por agora. Reparou na sua caixa de correio com envelopes suspensos pelo espaço exíguo e não reagiu. Saiu, deixando a porta do prédio aberta. Talvez não quisesse voltar atrás.

Preferiu a parte da rua que descia e sentiu todas as irregularidades do passeio, numa atenção desmedida de pesquisa insinuante. Chegou à primeira esquina e atravessou a rua sem hesitações. Continuou, junto ao muro de gradeamento verde escuro. Pela primeira vez não olhou o jardim e o que restava da velha mansão. Pela primeira vez não desejou possuí-la. De mãos nos bolsos foi avançando, olhos no fim da rua sem reparar em ninguém. O frio fazia-o encolher um pouco os gestos, num arrepio de madrugada tardia, onde a cama parece tão longe. Acelerou o passo já perto da esquina. Parou junto à curva e fingiu escolher. Este ou Oeste?

Ao som de Riverside "The Same River"

2 comentários:

Nin disse...

E o que aconteceu depois? Para onde foi? Já fiquei curiosa... Conta mais :)
beijos!!!

macaso disse...

Toma lá um beijo.