dezembro 27, 2006

Terceira parte

Depois de mexer, um minuto nunca perdido, provou e voltou a pousar a chávena. Gostava de prolongar o prazer. Olhou os bocados de asfalto húmido, por entre os carros estacionados um pouco por todo o lado. Ninguém. As mesas da esplanada continuavam vazias. Quase todas. No cimo do baldio um cão farejava os restos do que foram compras e impulsos. Parecia ter a cor do tempo. Desafiando a penúria do animal, pegou na chávena e bebeu. Sentiu uma onda quente atravessar-lhe a garganta e o íntimo. Olhou o cão e desejou-lhe um fim de tarde morno. Bebeu o resto do chá e recusou-se a segunda chávena. De propósito. Deixou-se ficar por alguns minutos. Os bastantes. Levantou-se, deixou uma nota exagerada em cima da mesa e virou-se para a direita. Ninguém. Tinha adivinhado. Aninhou o pescoço no cachecol preto e subiu a rua. Talvez no cruzamento...

Ao som de Baxter Dury "Cocaine Man"

1 comentário:

Anónimo disse...

Releio os textos, alguns já os sei de cor, por conta de uma memória elevantina que se apodera do que considera ser seu, mais menos dia são tão meus que não reconheço a proveniência. Concebo uma imagem de quem está do outro lado, tipo catalogo, mania esta de juntar variáveis, e depois interpretá-las. Só pode ser militar, mas um militar inconformado, daqueles que saíram de uma forma diferente, com o da história do soldadinho de chumbo. O rio que ele fala não deve ser o Tejo, calculo que seja o Douro, só pode ou talvez não, o Guadiana não é certamente. Não tem gatos ou cães e vive sozinho, as vezes acompanhado…muitas vezes acompanhado, tem afectos soltos, soltos mas não do tipo pipocas. Esteve em Macau, isso esteve certamente, fala de galgos, corridas e bluffs, esteve certamente, se calhar até nos cruzamos em alguma tendinha, se calhar não sei, dai talvez não, se nos tivéssemos cruzado o teria reconhecido.
Maria joão