janeiro 12, 2007

Certamente

Quando saí da sala, ainda no hall, senti o fio de nostalgia nos braços e nos olhos enquanto perdiam o brilho. A porta abriu sem ruído de arrasto e junto aos elevadores, o frio corrompeu-me a hora tardia e a pressa de diminuir o atraso. Desci no elevador amarelado, confiando na falta de vontade de sair dali. Era um sítio onde se esqueciam as horas e os motivos, onde o controle era um encolher de ombros ao que ficava lá fora, ou ao que chegava pela janela aberta, em barulhos de regressos a casa e compras apressadas. Imaginava um outro que vinha pela rua de baixo, medindo com minúcia todos os movimentos e centímetros do passeio e na esquina, escolhia sempre o lado esquerdo da avenida em direcção à farmácia. Não conhecia esse outro, nem lhe aguçava a curiosidade as suas mãos nos bolsos e a gola do casaco subida, como num filme. Chegou a pensar em segui-lo, mas acabou por deixar cair a vontade. Sabia que o outro existia e é tudo. Sabia que direcções tomaria e isso bastava-lhe.
Abriu a porta do elevador, carregou no botão do fecho eléctrico da porta e ao sair não resistiu olhar à sua direita. Claro que não o viu o outro. Sorriu da impossibilidade e virou à esquerda. Passou pelo antiquário que lhe causava sempre alguma emoção e desviando-se dos cães vadios, avistou o carro. Tinha de o lavar. Tirou a chave do bolso, abriu a porta e entrou. Ao fechar a porta, o ruído da rua acalmou. Meteu a chave na ignição, ajeitou-se no assento e desengatou a mudança para ponto morto. Girou a chave e deu a aceleradela da praxe. Ligou os faróis, esguichou água e ligou os limpa-vidros por alguns segundos. Cruzou os dedos e esfregou as palmas das mãos, num gesto de consolo. Logo depois, adormeceu.

Ao som de New Order "Your Silent Face"

1 comentário:

macaso disse...

Pensei que não tínhamos os mesmos gostos musicais. Voilá.