janeiro 09, 2007

Depois das velas apagadas

A janela do quarto, aquela que encontra o céu e os outros prédios de muitas alturas. Moveu-se o cortinado e entrou o sol da manhã, acima do septuagésimo andar. A luz recortou-a, traçou-lhe limites e aventuras, e ela sorriu. Ficou ali, a pairar, sugada pelo tempo de a imaginar ali mesmo. Nem a camisola de alças de alguma cor morna, acrescentou uma vírgula. Bastou o recorte, o traço da manhã, o dia parado, à espera de uma palavra que quebre o feitiço.

Não sei o que aconteceu depois. Não me lembro. Deixo solto esse ponto de memória, provavelmente agarrado ao cortinado ou a uma meia perdida no chão. Encolho os ombros sem me mexer. Continuo a olhar para a janela, para a silhueta dos prédios de cima do septuagésimo andar, de noite ou outra manhã qualquer. Sei que não vou encontrar nada. Ou melhor, não posso ser encontrado.

Ao som de Of the Wand and the Moon "Time Time Time"

Sem comentários: