março 03, 2007

Ficar aqui

Partida... Por todas as lágrimas de húmidas, nas esquinas, nas montras de luzes antes da madrugada, em canteiros antigos de uma instituição gravada na memória, produto de quiosques atentos e desatentos nas caras que passam e repetem o dia e alguma noite, sulco de um desvario ou de um anúncio de circo na cidade. Revolvem na conversa rala, no perigo de uma lembrança que provoca a claridade e a paragem do coração habituado, sopa esverdeada em pratos rasos, especiarias vendidas nos adros das igrejas que distam meias tintas entre si e o diabo, conviva das sextas-feiras pela manhã, quando o café se basta ao fumo e são repetidas as navalhadas de um barbeiro vitalício que dorme na porta giratória de um hotel condenado como presa suave de pinguins, gravatas desbotadas de tanto segurar as asas das ânforas, catres seguros de óleos e cânforas. Na multidão, alunos repetentes, vítimas de reprovações morais, guardiões de carteiras de madeira remendada, violadores de mente encarquilhada, pacotes de pipocas geométricos, líderes de faces abruptas motivando o convénio entre o ponteiro do mestre e a renda da concubina. E nas aleluias dominicais, porque as de sábado não valem o mesmo, descobrem-se almofarizes raros, legado de alguns narizes gelados pela frialdade do vento que pernoitou por aqui, rebelde e pecado de preguiça, limbo dos patos que encolhem os ombros no lago do jardim.
Pela rua que vai dar ao salão, às três da manhã, segredo mal guardado de um relógio atrasado no tempo e na memória, as gentes que nunca adormecem recusam acordar tratados e linhas imaginárias de lentilhas e esmeraldas, curiosidade que paira nas feiras de todos os livros, decotes e cartuchos de confeitos oferecidos à turba, minúcia do décimo quarto minuto da quinta hora, depois do meio dia, onde se repartem as metades de uma laranja seca, por onde se escapa a tentação e o exame da terceira classe.
Pausa intermédia... Cabe aqui um cocheiro, um padre que não saiba latim, um contador de histórias e uma viúva.
Largada... Ao entardecer, quando os chapéus de sol perguntam a idade dos mais novos, o dono da padaria reflecte as misturas e algum fermento fugitivo, na banca do peixe, onde o camarão miúdo é traquinas e antecipa futuros de estadista ou eloquência incontinente, ruminam-se períodos de seca e de míngua. Resvala a vontade de ficar ali, todo o dia, todas as horas de portões fechados, de capoeiras vazias, entre cascas de amendoim, previlégio seco de castas amaldiçoadas pela patetice de um beijo ou a sabedoria do fim da canção. De bicicleta, desce esbaforido o empedrado, cruzando formas de fontes e peixes enamorados, gritando cadências das tardes junto aos barracões, testamento prenhe de silêncios e ondinhas de rio junto à margem. Misérias esbatidas pelo jazigo perturbador de família, regra obtusa de viver antes do tempo, sempre que a morte espreitar a gaveta da mesinha de cabeceira, procurando desculpas e lenços encharcados. É a sorte de qualquer escrivão de província, querela de jornaleiro e comedor de omeletes, copos de vidro verde, gastos pela penumbra junto ao campanário, olho na estrada que sobe até à vila.
À vista do apeadeiro, procuro luz na taberna do outro lado do muro. Sorrio do salitre que não conheço, das rugas nas mãos trémulas que me trazem o copo. Deixo a mala no compartimento e desço. É Setembro... Chegada.

Ao som de Kyrie "Lipsia 1933"

1 comentário:

Conceição Bernardino disse...

Avancemos com o amor

avancemos com o amor
porque a partir de hoje
esquecemos tudo o que
nos soa a duvidoso
valor estendemos nas
mãos o tecido das nossas
trocas amor vem comigo
retomar o caminho em
que nos soltámos um dia
em passeios pela
alma

Poema da autora “Marita Ferreira” do livro “Múltiplos de ti”

Vale apena reflectir neste poema está cheio de verdade
Beijinhos
ConceiçãoB
http://amanhecer-palavrasousadas.blogspot.com