abril 23, 2007

Narcisista em harmonia

Tirei do armário a camisa branca de meio colarinho e pendurei o cabide na porta com todos os cuidados. Entre as calças do fraque e as do smoking, escolhi as mais solenes. Da gaveta do meio tirei o laço preto e na dúvida optei pelos sapatos pretos de verniz. De boxers e meias pretas fui à sala buscar o isqueiro e o relógio, numa atitude perversa onde a rebeldia colide com o bom gosto. Antes de regressar ao quarto, passei pelo espelho da casa de banho e com a tesoura pequena acertei a pera com o rigor das 7 e meia.
No quarto, ao espelho, motivado por qualquer patetice, mudei-me o cheiro com a mistela daquele gajo conhecido. Penteei com um risco geométrico e fiz as poses habituais e as expressões que precisava para essa noite. Evitei um suspiro por não se adequar ao momento e vesti-me com vagares de etiqueta. Calcei os sapatos e verifiquei no espelho do roupeiro. Perfeito.
No bolso esquerdo das calças guardei o isqueiro e no direito a pedrinha dos grandes dias. Oito e doze. Com o caminho, chegaria pontualmente atrasado.
Então, abri a gaveta de cima e tirei a tesoura grande. Com gestos exactos, cortei o laço ao meio, abri a camisa de um puxão, arrancando alguns botões e despenteei a popa. Satisfeito, peguei no blusão de cabedal exageradamentre coçado e sai, deixando a porta aberta.

Ao som de Sex Pistols "Silly Thing"

3 comentários:

Anónimo disse...

É trágica a impossibilidade de não se poderes ir descalço, com os pés bem assentados na terra, dedos espalmados como de macacos trepadores pouco dados a convenções sociais.
Maria joão

Anónimo disse...

já agora gosto de textos sobre pedrinhas. :-)

Anónimo disse...

As opiniões divergem:
O fenómeno ocorreu ali para a zona de Alfama ou da Graça, as testemunhas contradizem-se. Começaram por fazer amor muito ordeiramente no quarto, por conta de um nó cego com os cobertores deram um valente trambolhão, rolaram engalfinhados pelo corredor, e como a porta da rua estava inadvertidamente aberta, saíram enrolados para a rua, continuaram as hostilidades pelo chão frio da calçada portuguesa, desceram e subiram as sete colinas abertas para o rio, ali para os lados da Sé ou do Miradouro de Santa Luzia, mais uma vez as opiniões divergem, caíram num buraco e foram parar à China.

Ela achou que tal facto deveu-se a estar, naquela noite telúrica, possuída pelo espírito da intrépida alpinista Alexandra David-Neel, e da dinâmica imprimida pelo impulso compulsivo de trepar para cima (uma aspiração legitima), a verdade é que a escalada correu bem, e ela pôs os pés e o corpo no templo Potala. Esse contacto com o divino irrefutavelmente deu uma chancela mística a tal aparatosa gincana. Ele achava que ela era uma exagerada e não sabia com que cara ia encarar a vizinhança na reunião de condomínio por ter comprometido a integridade do edifício. Quem o tinha mandado deixar a porta aberta.

Maria João F.