abril 23, 2007

O boletim de voto já inclui o x

No caminho para a Assembleia, parava no café das janelas amarelas e bebia o seu chá das quatro e meia. Tirava do bolso o frasquinho do mel e adoçava a beberagem a gosto. Com um gesto de desprezo afastava o pacotinho colorido, ainda cheio. Limpava o beiço com o lenço assinado, ignorando ostensivamente o quadrado de papel branco à sua frente. Economizava as boas tardes e deixando as moedas certas, saia com pressa institucional. Subia a ladeira algo íngreme e ao ver o majestoso edifício, sorria disfarçadamente.
Trotava os degraus e esperava cronométricamente a vénia do porteiro. Percorrendo os corredores e as salas de ligação com o saber dos habituais, poupava desvios desnecessários. Ao aproximar-se da porta com o reposteiro escarlate, puxava os punhos e assumia-se solene. Entrava no hemiciclo e depois de alguns passos cadentes, verificava o vazio.
Mantendo a solenidade desejada, saía da sala e percorria no sentido inverso os corredores e as salas de ligação. Aceitava a vénia do porteiro e mergulhava na rua, saboreando com minúcia o dever cumprido.

Ao som de Maximo Park "Our Velocity"

1 comentário:

Anónimo disse...

Um chá de hortelã tem algo de subversivo, a folha é rugosa e pica levemente, não é um chá qualquer, possui um ritual próprio, tempos de fervura, e o ruído do gelo a estalar em estalidos quebradiços torna o momento quase místicos. Exige portanto conhecimentos profundos, passados de forma ancestral, não sei se sabes é a bebida dos anarquistas (acabei de inventar agora, mas não abdico desta nova certeza).
Certamente esse manga-de-alpaca não bebeu esse chá, provavelmente era de tília ou de erva-cidreira, uma bebida certinha e enfadonha.
maria joão