abril 03, 2007

Promessas

Jantei com os vizinhos do 2º andar. Petiscámos algum chouriço e vinho tinto. Dissemos pouco, com medo de falar demais. Fumámos alguns cigarros com a janela entreaberta, experimentando o fresco da noite. Sentia a pele dos braços arrepiar, mas gostava de ver as formas que o fumo desenhava fugindo da aragem. Na rua acenderam-se os candeeiros, soltando sombras e versos mudos.
Apeteceu-me um café e levantei-me. Propus-me convidar. Preferiram ficar em casa. Esperavam a minha saída. Agradeci mas não recordo de me despedir. Desci as escadas às escuras, forçando a palma da mão à parede gelada. Na rua encolhi-me dentro do casaco e fui na direcção do mar. Ao longo do muro branco da casa amarela, ouvi alguns passos. Em segundos, imaginei enredos e complicações cinéfilas. Parei na esquina do café do indiano, fechado desde o pôr do sol. Um fetiche por esquinas, embalou-me num silêncio sonolento de quem reflecte futuros decalcados de passados. Emaranhei-me em dúvidas de logística, alguns perigos avulsos e sem certezas, decidi-me pelo mesmo de sempre. Andei mais três quarteirões, entrei na taberna chinesa e com o café sorvi lentamente o meu copo de álcool verdadeiro. Deixo de beber amanhã. Ou depois.

Ao som de Cowboy Junkies "I'll Never Get Out of These Blues Alive"

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