maio 23, 2007

Arrumações

Saudades de um beijo. De um tapete andaluz que nos aquece a aventura, duas velas em castiçal dourado, a almofada e o cheiro a verde, fresco como uma noite de Verão. Dizem que a paixão é vermelha. Da cor de uma rosa que se deseja. Eu não acredito. Para mim, a paixão possui beijos azuis. Um azul profundo como as penas de um corvo. A paixão inveja ouros e um tom carmesim escuro que embriaga os segundos e os gemidos. A paixão é da cor do sangue. Um sangue espesso e escuro, o elixir que resguarda a sede e provoca o abismo. A paixão é a da cor do segredo. E nesse segredo, confesso saudades de um beijo que me complete. Um de mil. O primeiro de uma centena que me sacie a fome e devolva o brilho, ao olhar perdido de amante. Vi relances de paixão em Marrakesh, no final de uma tarde ensolarada. Voltei a cruzar o olhar tenso da paixão em Cracóvia, debaixo de estrelas e à porta de um albergue antigo. Voltei a vê-la em Viena, num beco poeirento em Bombaim, numa alcofa de lençóis de linho em Toledo e no vão de uma porta em Veneza. Agarrei-a por alguns momentos e deixei-a sempre fugir. Quando já não a esperava rever, dei com ela onde menos esperava. E continuo sem saber onde a guardei.

Ao som de Tito & Tarantula "Strange Face of Love"

1 comentário:

Anónimo disse...

Mínima no topo de uma enorme arvore, imaginou o que aconteceria se o ramo quebrasse. Imaginou-se a cair como uma estrela cadente. Por essa altura ela à muito tinha aprendido que o mundo tem muitas formas de despedaçar os homens e certamente aquela era a mais doce. A paixão aguada da cor das lágrimas da sua mãe, enraivecidas nas palavras secas da sua tia, eram a prova que bastava: “mulher alguma deve chorar por um homem, salvo se ele for seu filho! Miúda disparata foge do teu destino, renega às criaturas deste mundo, seres assustados, afecto de forma fugidia, mãos de dizer adeus, mãos que não sabem agarrar, finas de mais para susterem o seu próprio destino, vozes baixas sempre em segredo, risos envergonhados velado pelas garras esburacadas, o desencanto e desapego pela vida dos outros são as palavras que melhor os definiam. Diabrete em forma de gente não te apaixones, promete-me!”
Maria João