maio 15, 2007

Contraponto para o autor; só para o autor

Oito horas. Nove horas. Minuto a minuto, sol sim sol não, dúvida em forma de elevador em outro andar qualquer, bom dia oval, sub-reptício, preso por cordel de uma caixa de bolinhos, fóssil rebuscado de outra rua com principio, meio e sem fim. A esquina, a avenida, a esquina, a rua, a parede com impressão digital e pegadas de dinossauros, ou pelo menos um único, o que vagueava em habitat alheio, armas a tiracolo e óculos escuro de ver o mundo com a cor pretendida. A madrugada, o fim de tarde, a neblina, os papéis que voam em remoínho, os barcos ainda dormem, as prateleiras reflectem as luzes, e entre os que não acordam e os que dormem sugerem-se cortes laterais de onde se esvai a maçada e o tempo perdido. Não acreditam? Vejamos: uma chávena de chá, quase cheia, engraçada; o homem da gabardine, céu cinzento, nuvens escuras, chuva e mais chuva que atrasa o autocarro; um vidro de uma janela, fechada, segura, lânguida e morna; o copo de cerveja, alto, afunilado, glamoroso, dourado num balcão de apenas três clientes, todos diferentes, a mesma conversa, os relógios parados; as três voltas da chave, o empurrão de garantia, o olhar zeloso, as chaves no bolso e o dever cumprido; o nascimento, a infância, a juventude, a puberdade, a responsabilidade, o atrevimento, o crescimento e o desenvolvimento e a paragem cardíaca, o adulto, o maduro, o envelhecido, o idoso, o morto.
Consulto no catálogo a falta de coerência, reflicto algumas medidas de tempo, olho em volta (muito importante, olhar em volta) e submeto a vontade ao argumento. Que te importa se não foi escrito por ti.

Ao som de Suicide "Ghost Rider"

5 comentários:

Anónimo disse...

Gostaria de saber se escreves com tanta humanidade de como vives? ou é apenas mais um paradoxo interessante para juntar ao meu catalogo da raça humana?
maria joão

Anónimo disse...

Isso agora... ou melhor: Lovers, warriors, magicians, kings...

Von

Anónimo disse...

Uma não resposta não era o esperado. Mas compreendo que te reserves ao direito de não falar, vendo bem as coisas também não tenho legitimidade alguma em perguntar.
Maria João

Anónimo disse...

Responder um sim, vivo com humanidade, preocupação e solidariedade com o meu semelhante, traduziria não só alguma soberba, como dificilmente seria possível validar. Sendo assim, o que responder? Espero que a minha escrita responda por mim...

Von

Anónimo disse...

Respondeu como um King mas a sua escrita é declaradamente esfera do magician, fiquei satisfeita.
E já agora escreva com mais regularidade existe muita languidez, característica dos lovers na forma como vai alimentando e nutrindo o seu blog. Faço votos que o Warrior acorde, que desse nem ve-lo.
:-)
maria joão pouco dada a Eremite